Éramos muito pequenas, minha irmã e eu. Naquele Natal não conseguimos esperar a meia-noite. Aguentamos até umas nove horas e então fomos cambaleando para a cama, ''dormindo em pé'', como mamãe dizia.
Pela manhã, ao acordar, que contentamento! Aos pés da cama, os presentes. O meu era uma boneca. Sempre que eu podia escolher, escolhia uma boneca - pequena, grande, de pano, de louça, boneca bebê, boneca manina, boneca moça...Aquela era a Suely. Foi a predileta e a companheira de muitos anos. Nenhuma outra tirou-lhe o lugar. Sempre tive a mania de me devotar a que ou a quem eu amo. A Suely me entendia. E quando não tinha ninguém por perto eu conversava com ela. Era minha confidente. Muitas coisas não se pode falar com os adultos, pois eles não nos entendem. Por pouco tempo ela foi minha filhinha (era boneca moça...), depois foi minha irmã e então minha amiga.
Eu fazia vestidos para ela. E, dependendo do adereço, eu a transformava. Um colar na cabeça virava diadema e ela princesa. Um lencinho estampado era xale e ela, espanhola. Assim eu a vestia de cigana, de fada, de rainha, de noiva...Muitas vezes acho que a Suely era um pouco eu mesma. Aquela que eu queria ser.
Então eu cresci e a Suely ficou na infância.
Mas ainda hoje, quando é Natal, eu a trago de volta. Porque ela não ficou só na infância. Ficou também na memória e, sobretudo, no coração.
Trecho extraído do livro ''Minha Terra em Prosa e Verso'', de Lygia Schrank Araújo

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