‘‘É comum associar tatuagem e arte. A associação é complicada. Depende do conceito, da definição de arte. Sem dúvida o tatuador é um artesão. Mas seu trabalho é comparável ao do pintor? A obra, composta por milhares de metros quadrados de peles, forma um todo coerente que comunica uma visão de mundo e uma reflexão sobre a vida?
Existe emoção numa tatuagem? É uma construção intelectual? A tatuagem se aproxima da biografia encomendada: o biógrafo dá forma escrita à vida do biografado, ela comunica a perícia do tatuador e o imaginário do tatuado. E faz o observador pensar. Se a aceitamos como arte, assinamos embaixo: é a mais trágica das artes. Ou a única verdadeiramente trágica.
Caso desapareça, num passe de mágica, tudo quanto se escreveu sobre Van Gogh, seus quadros continuarão a existir. Uma escultura arqueológica pode ser indecifrável, mas continua a existir, resistindo por milênios. A realidade da tatuagem é bem diferente. A realidade é que ela não resiste ao tempo. Não resiste à morte. Para resistir, a tatuagem precisa do desenho, da foto, do cinema, do computador, e até das palavras.
É o que os tatuadores americanos queriam dizer quando afirmaram que, sem uma foto, nenhuma tatuagem está terminada. Se ainda assim teimar em ser arte - a arte de incrustar fantasia na pele -, será então a mais trágica, porque esta é a dor da tatuagem: existir para desaparecer’’.

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