Trash e insalubre
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
O exibidor (e uma certa categoria de espectadores, com certeza) não esconde frêmitos de gozo quando o 31 de outubro cai justo numa sexta-feira, dia de estréias e com o 13 ao contrário para incrementar ainda mais o clima do Halloween, esta invenção anglo-saxônica em mão dupla cristã e pagã que agregamos ao calendário festeiro como ordeiro rebanho. E este momento orgiástico nas salas escuras alcança níveis de paroxismo epifânico quando o ritual se completa com apelos visuais tingidos de rubro e salpicados de vísceras.
Pontualmente, como ocorre há cinco anos, chega hoje às telas brasileiras Jogos Mortais V (veja a programação de cinema na página 2), outra mórbida aparição de Jigsaw que aliás morreu dois filmes atrás.... , o sinistro personagem adicto a toda espécie de práticas macabras torturas explícitas é seu território preferido e indubitável campeão de audiência em sua especialidade. São 584 milhões de dólares arrecadados somente com os quatro primeiros títulos, o que transforma a grife sadomasoquista em campeã de rendas nesta categoria sempre desdobrável, vocês sabem, este segmento povoado por sextas-feiras 13, horas do pesadelo, hellraisers, brinquedos assassinos e por aí vai, a lista é longa e enfadonha.
Lançado nos EUA na última sexta-feira, o filme livrou logo US$ 30 milhões no primeiro fim de semana, com certeza se beneficiando do clima ainda de incerteza dos mercados mundiais pós quase terror-pânico nas bolsas e bolsos capitalistas crise econômica, ensina a história do cinema e das artes em geral, é sempre terreno fértil para safras de criação aterrorizante, que funcionam como tática diversionista prevalece a noção enganosa de que menos mal é o medo fictício do desconhecido do que o pavor diante de números e fórmulas reais que fogem ao controle da ambição e da cobiça punidas com a bancarrota.
O filme começa com um jogo muito instrutivo para carrascos, e em seguida se desenrola em três direções narrativas. Duas, no tempo presente, mostram o confronto entre o agente Stratham (Scott Patterson) e o detetive Hoffman (Costas Mandylor), e a luta de cinco pessoas em cativeiro e submetidas a uma sinistra competição para se manterem vivas. Consta que cometeram atos condenáveis. Seguindo o conselho vão contra seus instintos, devem passar por provas que levam o selo Jigsaw: sagacidade, muita perversão e a idéia falsa de recomposição moral. Vale dizer, a tortura como lição de vida...
A terceira linha do filme são os flashbacks que mostram porque um dos policiais se aliou ao vilão. Mas a principal atração, como de hábito, é imaginar quem será o próximo seviciado, e como. Em cena um mix de tormentos medievais e tecnologia século 21. O maior lugar-comum aqui é que os fanáticos por este tipo de cinema absolutamente desaconselhável para espectadores com um mínimo de sensibilidade recebem novamente mais do mesmo.
Dura, a vida de crítico, acrescida desta cota trash e insalubre. E haja perplexidade, diante da cara-dura do marketing que acompanhou o lançamento nos Estados Unidos: uma intensa campanha promocional para que a população tome consciência da importância de doar sangue...


