Transparência, imparcialidade e respeito
Qual a sua ligação com o coletivo Fora do Eixo?
Sou fundador do Fora do Eixo, que nasceu em uma reunião de quatro produtores de festivais de música independente, no final de 2005, em Goiânia, com o objetivo de estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia de produção e o escoamento de produtos culturais pelo Brasil. Muitos não sabem, mas fui eu quem batizou o circuito de ForaDoEixo. Criamos plataformas muito interessantes e de fácil acesso para disseminação e descentralização do mercado musical.
Por que você rompeu com o coletivo?
O rompimento aconteceu com a convivência e a falta de conduta profissional e ética, principalmente adotada pela cúpula em relação aos seus parceiros. Existem dois pesos e duas medidas no Fora do Eixo. A relação com os parceiros, sejam eles pessoas ou movimentos, varia muito e isso leva a diferentes relatos (de amor e ódio). Essa diferença é balizada pelo "poder" e "relevância" do parceiro. Se você é um artista, ativista, grupo, que tenha grande poder de repercussão, provavelmente será tratado muito bem pelo Fora do Eixo, e todas suas relações serão capitalizadas midiaticamente. Caso você não seja tão conhecido, provavelmente terá um primeiro contato tranquilo, mas caso tenham combinado algo com você existe a grande possibilidade de não cumprirem ou então te enrolarem absurdamente para cumprir. Isso é uma prática cotidiana. Depois de nossa rescisão com o FdE, chegamos à conclusão de que fizemos as coisas do modo correto. Sempre acreditamos que nosso maior propósito é o de colocar a música e a cultura em primeiro plano. Esta é a nossa postura política, nós fazemos a política da cultura, enxergamos cultura como política e não usamos a cultura para fazer política.
Mas você saiu candidato a vereador, não? Não é uma contradição com o discurso de "não usar a cultura para fazer política"?
Não, mas entendo por que as pessoas podem confundir as coisas. Muitos candidatos utilizam de seu posto/cargo para se promover e ganhar dianteira durante o período eleitoral. Eu não utilizei em nenhum momento a nomenclatura Marcelo "Demo Sul" ou Marcelo "do festival". Aliás, eu me afastei do posto para focar na eleição e nos pontos que acho importante além do segmento cultural.
Uma das críticas dirigidas ao Fora do Eixo é de que as bandas novas que participam dos festivais organizados pela rede não recebem cachês, e que o colaborativismo seria, no fundo, trabalho escravo. O festival Demo Sul não reproduz essas experiências ao deixar de pagar cachês para bandas locais e para a equipe da imprensa colaborativa?
O Demo Sul trabalha com um orçamento 10 vezes menor que o deles (Calango, Jambolada, Varadouro, Feira da Música, etc, que normalmente têm apoio das 3 instâncias do poder público e de algumas estatais). As despesas que temos aqui com a produção estrutural e logística do projeto chegam a alcançar quase 90% dos nossos custos. Sempre priorizamos uma estrutura de qualidade (som, iluminação, divulgação, etc.). E se o Demo Sul hoje está estabelecido nacionalmente como referência na música independente, é porque nossa contrapartida sempre foi valorizada pelas bandas que aqui se disponibilizaram a tocar. Se pagássemos cachê para todas as bandas, não conseguiríamos realizar o festival, ou, teríamos um "festival" de 1 dia e com 3 bandas. Ou pior, teríamos um festival de péssima qualidade. E eventos de qualidade duvidosa, além de não conseguir credibilidade e visibilidade, têm prazo de validade curto. Em 13 anos de festival, tivemos apenas duas vezes um orçamento que dava para pagar cachê a todas as bandas, e nessas edições todas as bandas receberam.
Muitos críticos do Fora do Eixo não deixam de apontar pontos positivos nos projetos desenvolvidos na rede. Quais são, para você, as experiências que merecem ser tocadas em iniciativas coletivistas?
O Fora do Eixo é talvez o que de mais bacana aconteceu na música nos últimos 10 anos no Brasil, analisando o movimento em seu papel macro, que fez com que diferentes pessoas pelo Brasil com o sonho de viver de cultura se conectem e troquem informações de forma colaborativa e solidária. Com seus defeitos, erros e grande amadorismo que se justifica pelo seu caráter laboratorial que foi extremamente necessário para manter a roda do mercado da música girando. Porém o coletivo, para dar certo, deve manter sempre a transparência e a imparcialidade necessária entre seus parceiros, e acima de tudo saber respeitar as particularidades, características, disposições e comportamento de seus membros. Vejo que todas as críticas estão fundamentadas nas experiências que cada pessoa teve ao participar direta ou indiretamente das ações do circuito, acho que cabe a cada um observar e tirar suas conclusões.





