Diz-se que quando o elétron cai de camada, se desloca, ele dá um salto quântico, se ‘‘transmuda’’, perde matéria, torna-se mais energia. Como falar de um assunto de arte sem envolver ídolos? E com a morte da Cássia Eller muita coisa que aquele talento podia ainda oferecer nos foi negado pela diferença de apenas uma carreirinha que podia ter sido espirrada em vez de. Espírito do rock no sangue.
Mas mais. Deslocamento é um acontecimento que une dois pontos movimentados: lá e cá. Do lado de cá a vida pela frente. Do lado de lá, a morte levando a alma, prisioneira que foi, do corpo. Um corpo se desloca no espaço com velocidade média de um xamã por linha. É preciso construir o mito. E sua história nos remete à transcendência de uma narrativa que tem na lógica sua estrutura. Quem são os que fazem isto circular? Uns não conseguem viver a própria vida, outros vão buscar do lado do espírito, do antepassado, da energia, da crença em um milagre do oculto que possa iluminar e, de repente, num clarão que passa na nossa frente, pronto, tudo que era para acontecer, fez-se. Vê quem quiser o caminho. Somos habitados por muitas camadas de sutilezas, torná-las habitadas é que são elas.
O bruxo tecnológico se orientou primeiro pelas estrelas para ver refletida na poça d’água a escritura do céu sobre nós. Vários são os destinos. Um cara chamado Eduardo Kac trama com uma idéia de telepresença, uma espécie de teleconferência, só que aí tem um bicho movido a desejo humano do outro lado e as pessoas podem fazer a engrenagem tirar fotografias do lugar onde estão, em ângulos diferentes, namorar pela internet, jogar burquinha, roubar milho no sítio dos outros. Chama-se decaimento de matéria o processo de perder elétron para uma camada inferior. Tá lá na física, no computador, tá lá na tela, tá no uso e no abuso de uma mesma idéia sendo dita por várias vozes e meios diferentes. Quer dizer, passar de um meio a outro.
O xamã canta, dança, desenha, incorpora, representa, conversa com forças mágicas. Faz fumaça, rito para trazer força à tribo ou a um membro dela. Em busca da cura. A cura, quer dizer, estado ótimo. É coisa de médico. E aqui ele é considerado quase isto, alguém que conhece o poder das ervas, o pajé. E também um sacerdote, mas esta avaliação é parcial demais pelo desempenho de seu papel. Em Bali o superior da tribo, o líder, manipula um teatro de fantoches, dando vida às fábulas sagradas indianas como o Mahabarata e o Ramayana. O poder é outro. É o de transcender pelo ato. Sair de um estado de matéria e ir prá onde? É incrível pensar que há três mil anos pessoas já pensavam assim. Já faziam isso. E usavam drogas. E faziam guerras. E morriam de overdose em busca de estados alterados de percepção para fazer este deslocamento da realidade, simplesmente pelo direito de fazer de seu corpo o que bem entendessem. E que entendessem. Não é à toa que os gregos inventaram a academia. Transmissão ordenada de conhecimento. A antena e o satélite fazendo a informação circular. A mídia comunica. O médium também. O desejo não se submete.
De xamã a alquimista - lidar com os humores da matéria - e bruxo, mago, até virar mágico, ilusionista, e por fim esse tipo de artista que desponta desde o começo do século passado à procura de contato com outros estados de ânimo, deslocando não só a idéia do que venha a ser um artista, mas também de que a vida é uma só e não se escolhe como morrer. Principalmente antes de ter planos sobre como voltar, se desse. Por isso, os ídolos. Tanto a física, a química, quanto a arte e o xamanismo constroem pontes unindo coisas diferentes, dois pontos, operando deslocamentos, mudanças, transformações, trabalho e conceito em cada obra criada. Cada um se alimenta com sua própria luz. Nada mais que a essência é essencial. Mas transbordar faz parte. Ainda dá tempo. Feliz ano novo!
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