''Me pareceu uma história importante a contar, não apenas para os sul-africanos, mas para as pessoas de todo o mundo''. As palavras do diretor dinamarquês Bille August resumem a principal virtude de ''Mandela - A Luta pela Liberdade'', estréia de hoje na sala alternativa da cidade: exatamente isto, a história.
África do Sul, 1968. James Gregory (Joseph Fiennes) é um afrikáner típico, classe média baixa, criado no meio rural, branco, racista intolerante - vale a redundância. Ele trabalha como funcionário de prisões com a patente de sargento. O soldo é miserável e mal dá para se manter, mais a mulher Glória (Diane Kruger) e os dois filhos. Por isso, a alegria da família é grande quando James é promovido a chefe da vigilância na penitenciária de Robben Island, lugar muito especial e muito infame porque ali está recluso o preso mais perigosamente ilustre do país, Nelson Mandela (Dennis Haysbert).
O motivo da promoção é que James conhece desde pequeno, e muito bem, o dialeto autóctone xhosa - o 'bafana' do título original significa menino. O serviço de inteligência precisa dele para ouvir e reportar tudo o que o líder Mandela diz e ouve de seus companheiros de cárcere. Mas aos poucos a relação entre preso e carcereiro começa a se estreitar, ao longo dos anos de convivência (foram vinte e sete ao todo, tempo em que o líder ficou confinado), e James e Mandela se tornam amigos. Mais que isso: a consciência branca de James termina influenciada pelo pensamento e pela convivência ativista de Mandela. O espião de ontem se torna o discípulo e aliado de hoje, e James cada vez mais se identifica com os ideais da luta anti-apartheid.
É até surpreendente ver aqui a assinatura de um diretor como Bille August, homem de ''cinema europeu'' que no início da carreira foi aluno muito aplicado de Ingmar Bergman. August dirigiu filmes memoráveis e intensos como ''Pelle, o Conquistador'' e ''As Melhores Intenções'', recompensadas com duas Palmas de Ouro em Cannes, 1987 e 1992. Mas logo enveredou pelo cinema mais comercial e de qualidade inferior.
Em ''Mandela'', que marca o retorno do cineasta ao bom caminho, ele contou com excelentes protagonistas e com uma história real, muito humana e até muito singela, transformada em imagens através de narrativa clássica, de maneira suave, sem qualquer estridência panfletária que somente poderia comprometer o discurso. A força da história é a própria força do roteiro, baseado nas memórias de James Gregory (co-escritas por Bob Graham), morto por um câncer em 2003. Joseph Fiennes compõe um carcereiro com muita aplicação, de novo dando uma lição de como mimetizar-se com um personagem.
O filme, na verdade, é a demonstração de um axioma: o apartheid é uma ignominiosa injustiça. A transformação que toma conta de Gregory através da influencia de Mandela (transformação que alguns podem achar prematura em termos de dramaturgia) é mostrada com realismo, sem grandes frases afetadas e nem fórmulas mágicas. Reconhecidamente dono de enorme carisma, homem de poucas palavras, mas de imensurável dimensão humana, assim Mandela é visto por Gregory.
Mesmo não sendo um desses trabalhos de antologia, ''Mandela'' é filme com inequívoca carga de humanismo, de interesse permanente e revestido com a dignidade que o tema requeria.

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