Transformações de um escritor baiano
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Márcia Vieira<br> Agência Estado 
''O Rei da Noite'', coletânea de crônicas de João Ubaldo Ribeiro que a editora Objetiva acaba de lançar em todo o País, reúne relatos da transformação do escritor baiano nos últimos anos.
Estão lá histórias divertidas do boêmio frequentador dos bares do Leblon, até a sua tentativa de se transformar num homem saudável, sem beber, nem fumar, com direito a caminhadas no calçadão. Na primeira das 34 crônicas do livro, Ubaldo narra um desses porres fenomenais. Em outra, ataca a ditadura da qualidade de vida.
No auge de suas aspirações a uma vida saudável, o cronista, já sem beber e sem fumar, arriscou até a ida a um restaurante macrobiótico em Salvador. O suco de espinafre, o arroz integral e a ''água descansada'' não encantaram Ubaldo, mas o relato é um dos melhores do livro. ''O Rei da Noite'' revela boas conversas dos botecos do Leblon, o bairro carioca preferido das celebridades. Em uma delas, um amigo tenta convencer o outro que beber uísque evita pegar aids porque o álcool mata o vírus.
Ubaldo faz parte de uma estirpe de cronistas que usa as próprias vivências como inspiração. E faz isso muito bem. Narra como ninguém as ponderações de um homem diante de um exame de próstata, as angústias da velhice e a irritação por causa das pressões para levar uma vida saudável.
Mas também fala com maestria sobre modernidade e amizade, além de contar conversas com amigos queridos como Jorge Amado. Foi o autor de ''Dona Flor e Seus Dois Maridos'' que lhe avisou há muito tempo: ''Compadre, já me falaram muito das alegrias da velhice, mas ainda não me apresentaram a nenhuma.'' E Ubaldo, aos 67 anos, confirma a teoria do amigo de que idade não ensina nada, só atrapalha. ''Calçar meias, para citar apenas um caso, já me parece uma modalidade olímpica e nem me passa pela cabeça alcançar um centésimo do índice.''


