Será que a arte que a gente vê hoje, pode ser vista com os mesmos olhos de quem a via quando foi feita, em outra época? Por exemplo, os habitantes da caverna, no período pré-histórico, será que eles pensavam o mesmo que hoje pensamos sobre o que eles pensavam quando faziam aqueles bichos no fundo das paredes, misturando sangue, terra e gordura para produzirem as tintas? Significado religioso, mítico, diversão, distração, expressão de sentimentos, etc.. Muito se tem discutido sobre o que levava aqueles homens à criação artística e, dependendo da época, da escola, dos interesses, cada grupo tem sua interpretação diferente.
O mesmo se pode pensar em relação a uma partitura de um compositor da Renascença. Será que o andamento é o mesmo daquele tempo? Será que a nossa percepção do tempo não é completamente outra da deles? Seria possível saber de todas as intenções de artistas como Michelangelo ou Da Vinci a respeito da obra que faziam a quase quinhentos anos atrás? Nosso discurso da planaridade formal deve ter enterrado um monte de mistérios que ficaram guardados naqueles afrescos de Giotto, nas catacumbas da Idade Média, nos porões do Coliseu, no fundo das pirâmides egípcias. Certamente.
O próprio entendimento do que é arte ou não, ainda hoje, não parece ter chegado a um termo definitivo e, quando há muito consenso sobre determinados assuntos, logo alguém já descobre outro sistema em desacordo com aquele que parecia o certo e tudo volta às origens das indagações. Afinal, o que é a arte?
Mesmo com tantas descobertas científicas, avanços da biotecnologia, genética, cibernética, desenvolvimento da mente, etc., o ser humano ainda engatinha no conhecer-se. Sim, é mais fácil inventar um clone, do que se reconhecer neste mundo. Exige sabedoria, coisa que a informação e o conhecimento, por si só, não bastam.
Arte e vida só podem ser entendidas se levarmos com seriedade, rigor e precisão não só os termos que indicam quais os caminhos estão abertos e quais ainda faltam abrir, mas também o de entender que tanto a vida quanto a arte não se fazem por um só caminho, embora haja caminho e caminhos a serem trilhados. Não é só a questão da reinvenção da roda, mas também aprisionar-se pela procura do novo, da novidade, pode ser uma escolha que redundará sempre no mesmo e é aí que mora o perigo da aceitação a uma visão empobrecedora do mundo e suas fontes não renováveis de energia.
A própria idéia de ‘‘arte pela arte’’, quer dizer, de uma arte preocupada em termos de pesquisa formal, plástica, estética enquanto harmonia de cores, proporção, composição, equilíbrio, já não faz mais sentido neste momento onde a idéia de fronteira vem sendo questionada. Aliás, paradoxalmente, pois por um lado anseia-se cada vez mais a abolição das barreiras comerciais, mas, por outro lado, barreiras são cada vez mais reforçadas, seja em termos de migração, seja em termos de divisão social.
Além do que, não é só entre arte e mundo que tais barreiras são constantemente tensionadas - como em um evento ocorrido, há poucos anos, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, onde vários artistas fizeram intervenções que tocavam diretamente no assunto, ou ‘‘obras’’ que incluem a plantação de árvores, como foi a proposta do alemão Joseph Beuys, projeto este continuado mesmo depois da morte do artista -, mas também dentro das próprias fronteiras e modalidades artísticas. Deste modo, acabou-se o que poderia ser chamado simplesmente de pintura, escultura, desenho ou gravura, mas algo que pode ser tudo isto ao mesmo tempo, ou nada disto, podendo ser chamado de arte ou não, pouco importando a seus autores. Isto é, quando o próprio conceito de autoria não é questionado.
Assim, chegar e dizer que o homem da pré-história queria dizer isto ou aquilo, com toda a certeza do mundo, sobre suas pinturas no fundo das cavernas, ou dizer que tal andamento de um concerto corresponde exatamente ao desempenhado séculos atrás, depende exclusivamente do quanto o homem se vê no mundo hoje e o quanto ainda falta para conhecer-se.
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