DivulgaçãoMarcos Winter, atores e equipe de ‘‘Lua de Outubro’’A tranquilidade com que vem se comportando o 25º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro, fica por conta exatamente do profissionalismo, ao que parece quase full time, que tomou conta da organização. Não era para menos: afinal, é o primeiro quarto de século de um duro aprendizado. Um tempo de preciosas lições, as necessárias felizmente assimiladas. Ainda há alguns equívocos e prevalecem certos maus hábitos estruturais. Mas Gramado continua a aprender fazendo.
Está faltando glamour a esta 25ª mostra, teria observado um festeiro de plantão. Pode até ser, mas não faltam filmes interessantes. O segmento brasileiro, desdobrado em manifestação paralela e competitiva desde o ano passado, trouxe filmes da mais recente fornada do momento renascentista. Já os latinos chegaram com o que têm de melhor sendo feito no continente - cinema de boa qualidade explodindo em visões múltiplas.
O que se viu, o que se vê São nove longas latinos para seis brasileiros, distribuídos na programação quase sempre em duplas e ao redor de curtas brasileiros também correndo atrás dos Kikitos. A Argentina abriu a competiçao oficial com uma curiosa experiência. O diretor estreante Mario Levin trouxe ‘‘Sotto Voce’’, uma tentativa de introduzir postulados do film noir num universo caracteristicamente portenho. O filme constrói uma intriga policial que somente não se sustenta e se transforma num grande filme porque falta a Levin exatamente o traquejo para extrair de seus atores grandes interpretações. Mais ou menos também o que falta a outro estreante, o gaúcho Henrique Freitas Lima, que apresentou a primeira superprodução mercosulina - com aporte argentino e uruguaio - ‘‘Lua de Outubro’’. A um custo de 3 milhões de dólares, o filme tem forte apelo regionalista (mas não nativista) e conta uma história de lutas entre chimangos e maragatos nos anos 20, temperadas por paixões marcadas pela tragédia.
A entrada de Cuba no Festival não poderia ser mais barulhenta. O diretor Rigoberto Lopez assina o documentário ‘Yo Soy del Son a la Salsa’’, que conta em quase duas horas a minuciosa história da música caribenha que hoje em dia todos chamam de salsa. O filme é de um rigor documental exemplar, fruto de exaustiva garimpagem iconográfica. O resultado é que assistí-lo é um duplo prazer: para os olhos e principalmente para os ouvidos. O teste de fogo acontece a partir de 12 de setembro: o filme tem lançamento acertado em 30 salas em Nova York, obviamente em território de fala hispânica. A julgar pela receptividade ‘‘brasile¤a’’ na sessão gramadense, o resultado não deve ser diverso.
A primeira boa notícia brasileira em longa metragem veio através de ‘‘ O Homem Nu’’, de Hugo Carvana. Comédia na linha urbano-dramático-irreverente que é quase um gênero emblemático carioca, o filme arrancou boas risadas da platéia. Baseado sem expressivo rigor no clássico que Fernando Sabino escreveu há exatos 40 anos (e que teve uma primeira e também muito boa adaptação de Roberto Santos), ‘‘O Homem Nu’’ aponta com vigor criativo para uma das várias direções desta encruzilhada atual do cinema brasileiro.
O colombiano Sergio Cabrera já ganhou em Gramado com ‘‘Técnicas de Duelo’’. Agora está de volta com ‘‘Ilona Llega con La Lluvia’’, longa que já andou por Veneza ano passado, sem êxito. O filme é recorrência a um certo tipo de cinema fatalista-existencialista que os franceses fizeram muito nos anos 50, sobre o destino de homens e mulheres aventureiros em busca da felicidade em portos sem nacionalidade definida. Há um problema com o filme de Cabrera: a versão que está em Gramado foi reduzida por exigência de distribuidores e perdeu cerca de 30 minutos. Se por um lado não prejudica a compreensão do argumento, por outro com certeza empobreceu a narrativa. De qualquer maneira não parece o diretor em sua melhor forma.
O jornalista viajou a convite do Festival.

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