Tramas ideológicas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de janeiro de 2012
Mariana Trigo<br> TV Press 
Graças à teledramaturgia, a política não só é retratada nas primeiras páginas dos jornais, como também costuma frequentar os cadernos de cultura. Através das tramas com conteúdo político, muitos autores convidam o telespectador à reflexão ideológica sobre momentos críticos da História do país.
Produções como ''Anos Rebeldes'', de Gilberto Braga, ou ''Amor & Revolução'', de Tiago Santiago, retratam os anos de chumbo no Brasil. Enquanto isso, autores como Lauro César Muniz ou Marcílio Moraes quase sempre abordam questões políticas em suas histórias como forma de não só divertir, mas alertar e informar através do entretenimento.
Prova disso é que uma das apostas da Globo para o início de 2012 é a minissérie ''O Brado Retumbante'', que estreia no próximo dia 17. A produção de oito capítulos, escrita por Euclydes Marinho e com colaboração do jornalista Guilherme Fiúza, da socióloga Denise Bandeira e do jornalista Nelson Motta, conta a história de um parlamentar que chega à Presidência da República.
Na história, Paulo Ventura, do protagonista Domingos Montagner, assume o cargo após ser presidente da Câmara dos Deputados, através de uma manobra política, e se torna uma espécie de fantoche do sistema. ''Um grande incômodo com a situação do país me fez escrever essa minissérie anos atrás'', argumenta Euclydes. ''Como dizia o escritor Júlio Cortázar, a ficção é a história secreta das sociedades. Por isso, é preciso falar sobre política na dramaturgia. Por mais tramoias que inventássemos na ficção nesta minissérie, todo dia éramos superados pelos jornais'', salienta Nelson Motta.
Para Tiago Santiago, que está no ar com a novela ''Amor & Revolução'', no SBT, e mostra desde as torturas pelos militares até o exílio na ditadura, a relevância do assunto é atemporal na teledramaturgia. ''Na novela, fica claro que não apoio a ditadura militar. Tento apenas mostrar o que acontecia no país naquela época e muita gente ainda prefere tapar o sol com a peneira'', ressalta o autor.
Já Gilberto Braga escreveu a minissérie ''Anos Rebeldes'' com a ajuda do escritor Sérgio Marques, que o orientou sobre a situação política da época. ''Eu era meio alienado nos anos 60. Quase não me interessava por política'', admite Gilberto.
Papel social
Através da retratação fidedigna de determinados momentos políticos do país, mesmo que as histórias sejam permeadas por todo um universo ficcional, é possível exercer um papel social através da teledramaturgia. Dias Gomes, por exemplo, sempre fez questão de tratar de assuntos de forma politizada, em tramas como ''Araponga'' e o ''Bem Amado'', entre tantas.
Já Aguinaldo Silva, em ''Tieta'', quis fazer uma metáfora sobre a volta da liberdade de expressão, afinal era sua primeira novela após o fim da censura. ''No dia em que Tieta era expulsa de Santana do Agreste, o pai dela arrancava a folhinha do calendário na data de 13 de dezembro de 1968. Ele dizia que queria esquecer essa dia. Foi a data em que foi promulgado o AI-5. Mas quase ninguém percebeu'', lembra.
Para Marcílio Moraes, autor de histórias com pano de fundo político como ''Ribeirão do Tempo'', da Record, todas as suas tramas sempre contam com algum viés estadístico. Afinal, mesmo nas obras de inspiração ficcional, a política é uma matéria-prima sempre instigante. ''Eu sempre me interessei por política. Esta é a razão pela qual escrevo sobre o assunto, não por qualquer compromisso ideológico ou partidário. A política expressa os grandes conflitos de uma sociedade. É isso que me fascina'', avalia Marcílio.


