Trajetórias interrompidas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de agosto de 2002
Roberta Brasil<br> TV Press 
O Horário Eleitoral Gratuito não é exatamente encarado com simpatia pelos profissionais de televisão. Ele altera a programação e gera constrangimentos, em função dos programas que são reduzidos ou retirados da grade. Sem contar a queda de audiência. De noite, com os programas ''empurrados'' para mais tarde, pode representar uma redução de 10% a 20% no Ibope de cada emissora. Pior: o Horário Eleitoral, que começa no dia 20, causa prejuízos mais palpáveis, em dinheiro. Em função das duas inserções diárias de 50 minutos entre 13 horas e 13h50 e 20h30 e 21h20 os contratos comerciais precisam ser renegociados. ''A maior dor de cabeça é esta. Cada minuto representa uma grana e, por mais que as alterações sejam bem-planejadas, o prejuízo é inevitável'', diz o Diretor de Programação da Band, Rogério Gallo.
Mas poucos aceitam falar oficialmente sobre as mudanças. A Globo, por exemplo, divulgou um boletim com as alterações na grade com 15 dias de antecedência. Só que não explica os critérios de escolha. A Central de Comunicação limita-se a anunciar que ''as decisões de programação são estratégicas e a grade é adaptada para proporcionar o melhor ao público''. Assim, tenta evitar o burburinho em torno dos programas preteridos e defenestrados. Já Record, SBT e Rede TV! parecem ter encontrado sérias dificuldades em fazer os ajustes. Mesmo com os horários de programação política previamente estabelecidos e anunciados pelo Tribunal Superior Eleitoral, as emissoras aguardaram a reunião com o TSE, na semana passada, para planejar as mudanças. O argumento em comum e oficioso foi de que a ordem de aparição dos candidatos poderia influir na programação.
Na MTV não houve drama. Durante a semana, o ''Central'' absorve a primeira edição do TSE e, à noite, o ''Control Freak'' perde meia hora. Já no sábado, quem perde duas horas é o ''Comando'', que termina às 17 horas e antecipa todos os programas seguintes. Mas a Band foi a que menos mudou. A primeira interrupção acontece no meio do ''Melhor da Tarde''. ''Assim, evitamos o 'efeito dominó' nos horários'', explica Rogério Gallo. À noite, o ''Esporte Total'' perde meia hora e sai do ar às 20h30. Já o ''Sob Controle'', com Marcos Mion, vai começar mais tarde: passa de 21 horas para 21h20 e termina às 22h15, quando entram os filmes.
A mexida na grade também serve de desculpa para uma ''limpeza geral''. Alguns programas são apenas suspensos. Outros, porém, continuam de fora após as eleições. É o que a Globo pretende fazer com ''Linha Direta''. Apesar da audiência, em torno dos 30 pontos, o programa que dramatiza crimes hediondos enfrenta a oposição de jornalistas dentro da própria emissora. A informação sobre o fim do programa não é oficial. Mas comenta-se nos corredores da Globo que, se o programa realmente sair do ar durante o Horário Eleitoral, é certo que não volta mais. O apresentador Domingos Meirelles, contudo, não acredita nisso. ''Continuo trabalhando normalmente e tenho 11 programas gravados. Se fosse para suspender, já teriam me avisado'', imagina.
Outro que sai da programação da Globo e não tem retorno confirmado pelo menos para este ano é ''Fama''. Com a final, do dia 17, o programa deixa a grade de segunda a sábado mais folgada para a emissora, que vai antecipar as novelas das seis, das sete, o noticiário local e o ''Jornal Nacional'' para entregar o sinal às 20h30. Depois, às 21h20, volta com ''Esperança''. No fim da noite, entra de terça a sexta a reprise da minissérie ''Engraçadinha, Seus Amores e Seus Pecados'' um tempero erótico para tentar manter o público desperto.
Já ''Brava Gente'' e ''Os Normais'', apesar de suspensos, têm retorno garantido. O diretor de ''Brava Gente'', Roberto Farias, já prepara um especial de Natal. A equipe de ''Os Normais'', por sua vez, trabalha no lançamento de novos pacotes de DVD e no roteiro de um filme. O diretor José Alvarenga garante que não tinha interesse em exibir ''Os Normais'' depois das 23h30 em função da queda de audiência dez minutos podem representar dois pontos a menos no Ibope e também não teme ficar dois meses fora do ar. ''Ninguém esquece o Rui e a Vani. Eles já habitam o imaginário do público'', gaba-se.


