Trajetória sombria
Depois de 27 anos em coma profundo, Rosemary, a mãe do famoso bebê satânico, acorda misteriosamente. O ponto de partida de O Filho de Rosemary (286 páginas/Editora Record/R$ 28), a continuação da obra ( ou O Bebê de Rosemary), de Ira Levin, é uma mostra de que o autor não pretendia mesmo primar pela originalidade. A intenção, de fato, parece ter sido a de escrever um pré-roteiro para Hollywood. Levi mata a curiosidade comum de saber o que aconteceu com o bebê, fruto de um acordo com o Diabo, e traça a trajetória de vida do filho de Rosemary, agora com 33 anos. O reencontro marca o início de uma nova relação entre a mãe e o filho Andy, um sujeito dócil e carinhoso que mantém a personalidade endiabrada de quando nasceu.
O livro tenta seguir a linha de suspense da obra original e da adaptação para o cinema dirigida pelo estreante Roman Polanski. Apesar de ter virado best seller quando foi lançado, em 1967, foi a versão cinematográfica protagonizada por Mia Farrow que consagrou a história de Levin. Na trama, Mia vive uma jovem que tem um filho nascido do pacto com o Diabo. Com a idéia de ser um grande ator, o pai não hesita em vender a alma do filho a Satã em troca do estrelato. Mas quem pena é a mãe, que tem de carregar um bebê maligno.
Em O Filho de Rosemary, a tensão criada já na capa do livro não se sustenta até o final. Com uma impressão feita nas cores vermelho e preto, o título se destaca num rubi reluzente com um fundo negro. Apesar da bela concepção, apenas as primeiras páginas do romance trazem uma narrativa de tirar o fôlego. Em pouco tempo a trama desvia-se para o lado da intriga. O suspense dá lugar a uma mirabolante história de busca de fama e poder. Mesmo contrariando as expectativas de calafrios, o livro traz uma interessante trajetória de vida para Andy.
Com a idade de Jesus quando crucificado, Andy reaparece como uma espécie de anti-Cristo moderno. A idéia do jovem é conquistar o mundo através de pregações de bondade e amor ao próximo. O autor aproveitou a necessidade da busca espiritual das pessoas nesse fim de século para criar a base da trama. Os poderes de Belzebu ajudam Andy a criar uma organização para a tomada do poder, primeiro nos Estados Unidos e depois no resto do planeta. Tudo é esquematizado nos mínimos detalhes. Desde a criação de jingles e de comerciais publicitários até a execução de um projeto que reúne povos do mundo todo numa celebração de paz.
Rosemary cai de pára-quedas na história e passa a ser uma marionete nas mãos do filho. Apesar do livro ser dedicado à atriz Mia Farrow - que deu um show de interpretação na versão cinematográfica de O Bebê de Rosemary - a personagem não tem a mesma força dada pela atriz no filme. Dessa vez, é Andy quem rouba a cena com os olhos de fogo e os pequenos chifres que só a mãe pode notar. Os diálogos entre mãe e filho anunciam a ganância e a falta de caráter do endemoniado. Para apimentar a história e mostrar o quanto o protagonista pode ser maquiavélico, o autor chega ao exagero de fazer com que Andy deseje sexualmente a mãe. Várias vezes tenta beijá-la à força. Como uma boa mãe, ela desculpa o filho e pede para que ele não insista.
Em síntese, O Filho de Rosemary traz uma trama exagerada, mas convincente. Nem sempre um autor consegue superar a obra original. Não há como pensar em Rosemary sem lembrar da atuação de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary. O mesmo se pode dizer da primorosa direção de Polanski. A continuação do drama de Rosemary acaba arranhando uma obra que já impressionava por si só, sem a necessidade de sucessor.Arquivo FolhaMia Farrow, a quem o livro é dedicado, como Rosemary, no filme de Roman PolanskiIsadora Andrade
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