O ator Benvindo Siqueira não se considera um sujeito permanentemente engraçado. Mais que isso, ele odeia ser assediado na rua por pessoas que estão ávidas por ouvir uma piada. ‘‘E olha que eu sei mais de duas mil piadas de cor’’, garante. Mas não é a todo momento que o ator gosta de dividir o seu farto repertório de anedotas.
Na época que trabalhava fazendo exclusivamente shows de humor pelo Brasil, Benvindo foi convidado para jantar na casa de uma importante socialite. Acreditou que era apenas para degustar finos quitutes. Impecavelmente vestido de smoking, o ator jantou e logo depois teve de ouvir, surpreso, da dona da casa. ‘‘Agora todos façam uma roda que o Benvindo vai nos alegrar um pouco’’. Foi o suficiente para que o ator perdesse a paciência e dissesse, minutos antes de ir embora: ‘‘Me desculpem, mas quem ri o tempo todo é jegue’’, vociferou, para decepção dos convivas.
Definitivamente, Benvindo não gosta de ser taxado de humorista. Para ele existe uma diferença crucial entre o humorista e o comediante. Segundo Benvindo, o comediante é um ator dramático que estuda os diferentes traços da personalidade humana e passa a tratá-los com espirituosidade. ‘‘Woody Allen é comediante. Já o Juca Chaves não passa de um humorista’’, compara.
Em 1991, o ator teve a oportunidade de trabalhar ao lado de um outro comediante: Chico Anysio. Ele fez parceria com Chico no programa ‘‘Chico City’’. Na época, Benvindo interpretou o personagem Irmão Saddam, o auxiliar do pastor picareta Tim Tones, vivido por Chico. Sem conter a modéstia, Benvindo acredita que gravou somente três programas ao lado de Chico porque o Irmão Saddam ofuscou Tim Tones. ‘‘O Chico tratou de me tirar do ar rapidinho’’, aposta.
Antes disso, porém, Benvindo conseguiu ficar mais tempo no ar do que o previsto. Na novela ‘‘Tieta’’, de Aguinaldo Silva, exibida em 1989, ele interpretou o mendigo beberrão Bafo de Bode. De acordo com Benvindo, o personagem aparecia durante um minuto, uma vez por semana. Ainda assim, teve grande repercussão. ‘‘Até hoje, o público me reconhece pelo trabalho que fiz com o Bafo’’.
Mas na época, os colegas de elenco do ator o discriminavam por causa do aspecto sujo do personagem Bafo de Bode. ‘‘Ninguém sentava na mesma mesa que a minha para almoçar’’, lembra-se Benvindo. Ele mesmo mal podia suportar a imagem do personagem. Por isso, assim que o ator era liberado das gravações em Tieta, ia à forra. Ele fazia questão de andar em carros novos, vestir ternos alinhados e se encharcar de perfume francês. ‘‘Procurava esquecer o Bafo porque pobreza é um carma. Pega’’, brinca o ator.
Idealismo político Benvindo não gosta de falar muito no assunto, mas os olhos chegam a brilhar de emoção quando o ator lembra que aos 16 anos entrou para o Partido Comunista. Mais tarde participou até de lutas armadas, como um idealista extremado. ‘‘Eu não queria fazer humor. Queria fazer a revolução’’, lembra-se.
Por causa dos tempos difíceis, o ator - que também é um amante do cinema - tem uma certa resistência a assistir filmes nacionais que recontam períodos da repressão brasileira, como ‘‘Lamarca’’, de Sérgio Rezende, e ‘‘O que É Isso Companheiro?’, de Bruno Barreto. ‘‘Levei um ano para ver o Lamarca e, ainda assim, fiquei com a sensação de que Deus é de direita’’, conta Benvindo.
Mas nem a repressão foi capaz de censurar a espirituosidade de Benvindo. O ator lembra de um episódio quando saía de um aparelho - como eram chamados os esconderijos - para pegar um ônibus e percebeu que era seguido por um policial. Assim que um ônibus se aproximou, o ator fez sinal, e subiu juntamente com o policial. ‘‘Desci no ponto seguinte e sacaneei aquele sargento’’, assegura Benvindo.

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