Trair é criar
Sobre um mar de lama que eles próprios construíram, a maioria dos políticos nacionais prega a moralidade, enquanto milhares de pessoas passam fome. Nunca terão a coragem de dizer que acabar com a miséria não é prioridade para eles. Nunca poderão falar, senão ao espelho: sou um falso! Mas um artista quando joga com a falsidade, pode estar mostrando uma verdade tão contundente que somente à maneira de ser falso, pode valer-lhe a arte. Valha-nos!
O movimento artístico da Pop Art, surgido na Inglaterra no final dos anos 50 e desenvolvido nos EUA nos anos 60, é fruto de uma sociedade de consumo altamente tecnológica, industrializada e sobretudo, de massas. Tornar o cidadão um consumidor, o ser humano um comprador de produtos e serviços de toda a natureza é a ideologia deste sistema, afinal, sua essência é o lucro. Assim, toda idolatria se transforma em fonte de renda e as imagens são vendidas como atestado de inclusão em um mundo transformado em mercadoria. Das imagens de santos às latas de refrigerante. Das musas às frases prontas, feitas e de efeitos. Da pintura visceral, expressionista, aos desenhos publicitários. Do estudo do belo às histórias em quadrinhos. Da imagem dos nossos heróis aos nossos inimigos, tudo colocado à venda, inclusive nossa alma. Nossa! Mais não é só. O movimento Pop também pode ser considerado como uma crítica irônica desta mesma sociedade de consumo, além de ser uma resposta ao formalismo que reduziu a arte a um jogo de composição, forma e cores, sem nenhum contato com a realidade, com o cotidiano, com a vida.
Um dos artistas que vem se dispondo a exercer esse tipo de arte, investindo em uma iconografia bastante popular e tão explícita em suas intenções é Jeff Koons. Continuador da vertente mais kitsch da Pop Art, sua obra traz apelo popular e deboche em forma de ursinhos de pelúcia , paisagens felizes, em um mundo cor de rosa que mostra o quão vazia e ridícula é a história da arte em relação a tudo o que se pode consumir. Se a obra de Jasper Johns e Rauschenberg podem ser consideradas a parte mais intelectualizada do movimento e Andy Warhol e Lichtenstein a mais popular, certamente a obra de Koons apela para o que há de mais banal e ilustrativo nas imagens de consumo.
E no Brasil, como seria a tradução desses valores, já que a imitação ao american way of life já vem sendo construída há tempos? O que pressupõe algo de falso dentro de algo que não é original. Ou seja, processo cultural de assimilação, incorporação de formas e conceitos, na medida em que a realidade sócio-econômica é outra. Aqui, serviu de crítica à ditadura nos anos 70.
Sidney Philocreon, curador do projeto Linha Imaginária diz que é a tradução folclórica da tradição histórica, mas é também símbolo e sintoma de uma profunda tristeza e depressão que, para se esconder, pinta o cabelo de loiro, procura eternizar a juventude, posar de vencedor, viver a possibilidade do glamour com a esperança de não desbotar.
Diante das fotos do Marquezinho do Barroco, de Richard Calhabéu, não há como fugir, à primeira vista, a um certo asco diante do anedótico, com aquela imagem falsa, empoada, de uma nobreza fora de época, de beleza analfabeta como o próprio diz, alegre, divertida e descompromissada. Como se o personagem se recusasse a pular fora do carro alegórico, uma vez findo o carnaval.
Retrato da própria contradição em que o país vive, o Marquezinho é, de tão falso, um produto absolutamente original. Sua presença patética questiona sobre a condição debochada, carnavalizada, imitativa, contrastante e barroca que o Brasil assume diante de si e do mundo. Sim, somos barrocos! E a única saída que possuímos diante de tal dilema é aceitarmos nossa condição de nobres às avessas. Carnaval o ano inteiro! Por quê, não?
Não há que esperar pelos políticos. Só o artista é sincero quando coloca a máscara sobre seu rosto, porque entende os espelhos.
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