Lançado na Inglaterra em fevereiro de 96, desde logo ‘‘Trainspotting’’ se impôs como o fenômeno cinematográfico do ano. Aclamado por parte da crítica e vilipendiado por outra, tornou-se herói-vilão da noite para o dia. E quando chegou há um ano ao Festival de Cannes, já na condição de sexta maior bilheteria do cinema britânico em todos os tempos, ninguém entendeu muito bem por que o filme foi inscrito hors-concours , inicialmente confinado a uma primeira exibição à meia-noite. Hoje já não é mais segredo: os Conservadores, que tentaram em vão apelar para a censura inglesa a fim de ‘‘proteger a juventude de um filme malsão e decadente’’, mexeram os pauzinhos para tirar uma quase certa Palma de Ouro do caminho de ‘‘Trainspotting’’.
Realizado pelo mesmo trio vencedor de ‘‘Cova Rasa’’(o diretor Danny Boyle e seus cúmplices, o produtor Andrew Macdonald e o roteirista Mike Hodge), ‘‘Trainspotting’’ - no Brasil exibido com o inócuo subtítulo de ‘‘Sem Limites’’ - evoca a vida desastrosa e auto-destrutiva de um bando de jovens junkies escoceses, vivendo nos subúrbios de Edimburgo e em Londres nos anos 80. O filme, baseado em novela cult de Irvine Welsh, de 1993, de certa maneira repete a fórmula de ‘‘Cova Rasa’’: criatividade visual, agora sim, sem limites; e aquela explosiva mistura de realismo cru, fantasia cinematográfica e diálogos espertíssimos e diretos. O que o diferencia de ‘‘Cova Rasa’’, e para melhor, é que aqui o resultado estabelece novos padrões para a profanidade no cinema.
Anti-heróis e heroína Uma sequência antes do título apresenta a locação e os personagens principais: o psicopata e ‘‘viciado sensorial’’ Begbie; Sick Boy, namorador obssessivo e profundo conhecedor da vida e da carreira de Sean Connery; Spud, junkie boa praça e amigo de todos; Tommy, auto-proclamado amante da verdade e por enquanto livre de drogas. Mas o centro de tudo e de todos é Mark Renton, uma espécie de viciado-filósofo que atua também como narrador, alguém na primeira pessoa que oferece à platéia uma visão peculiar de valores anti-classe média, alguém que afinal alcança uma liberação que é mais escape temporário do que uma mudança real de percepção. Apresentados os protagonistas desta absolutamente inusitada comédia negra, a história cai então para dentro de seu mundo irreal, com descrições gráficas da loucura induzida pela heroína. O filme vem chocando menos pelo tema (a devastação causada na juventude pelas drogas, neste fim de século) do que pelo tom adotado pelo trio Doyle-MacDonald-Hodge: nenhum sentimentalismo, nada de julgamentos morais, nenhum clichê. Somente fatos e imagens, e sobretudo uma dosagem de humor negro capaz de despertar da letargia qualquer público. Sequência desde já inscrita nas antologias: tentando se livrar da heroína, Mark introduz dois supositórios de ópio como parte do processo de desintoxicação. O resultado é uma trip que o leva a mergulhar surrealisticamente na latrina da ‘‘pior toalete da Escocia’’, numa sequência delirante que mistura comédia negra e fantasia com um toque de Dali-BuÀuel.
Não há qualquer dúvida de que ‘‘Trainspotting’’, por suas características provocatórias a partir de um tema que muitos consideram tabu, se transformou em fenômeno social. A façanha mais notável do filme - e nem se cogita das condições de produção: somente 2 milhões de custo e seis semanas de filmagens - é a maneira como reúne um punhado de perdedores em torno de um assunto (se drogar sem culpa) e a forma como transforma este material em peça de sustentação de um cinema que é com frequência ferozmente engraçado e muito envolvente, também no que se refere a personagens. Notável a trilha sonora, de Iggy Pop a Lou Reed, enfatizando o submundo poético de ‘‘Trainspotting’’. E de tirar o fôlego as interpretações, especialmente de Ewan McGregor como Renton e Robert Carlyle como Begbie, tresloucado e violento sem uma gota de droga nas veias.
Para alguns ‘‘Trainspotting’’ admite não ser para todos os paladares - e esta é outra virtude, aliás rara no cinema contemporâneo feito em pasteurização seriada. A direção escatológica e inflexível de Danny Boyle é aqui e ali difícil de encarar. Mas ela se ajusta como uma luva - de boxe, jamais de pelica - para o roteiro preciso feito de comentários sociais secos e satíricos, em especial nos monólogos interiores de Renton. No que se refere a sua inventividade, à enorme distância do feitio acadêmico de cinema e ao jeito divertido de abordar um tema social doloroso, o filme se aproxima de outro impacto recente, o francês ‘‘O Ódio’’, de Matthieu Kassovitz.
Nesta visão sórdida das drogas corroendo a classe média, ‘‘Trainspotting’’ é uma descrição louca da subcultura. E é cinema de primeiríssima qualidade. A propósito: ‘‘trainspotting’’ tanto pode ser a compulsão de observar movimentos e manobras de trens, prática muito comum na Inglaterra, quanto significar a vida de vagabundos e desocupados.

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