TRAGÉDIA SURDA E INQUIETAÇÃO MORAL
Zeca Corrêa Leite
Duas salas de projeção da Fundação Cultural de Curitiba - Cines Luz e Ritz - estarão exibindo a partir de hoje, destaques da última edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: os filmes A Maçã, de Samira Makhmalbaf e A Cicatriz, de Krzysztof Kieslowski.
Entre a Vida e o Inferno
Samira puxou pelo pai, o famoso cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf. Aos 16 anos rodou A Maçã, um filme que está no limite da ficção com o documentário. Tudo nele é real - o enredo e os personagens que revivem para a câmara da jovem diretora, os horrores produzidos pelo fanatismo religioso.
A história é a seguinte - um fundamentalista islâmico faz uma leitura equivocada do Alcorão, traduzindo algo como meninas são flores que murcham sob o sol. Pai de duas gêmeas de dois anos de idade, aprisiona-as dentro de casa. Encarceradas nos estreitos limites do lar, num bairro periférico do Teerã, viverão os próximos onze anos, sem qualquer contato com o mundo externo.
Uma assistente social é designada para libertar as - agora - adolescentes, mas quando elas atravessam os umbrais de casa para o mundo, são duas crianças indefesas, retardadas, falando com dificuldade - apesar de já ostentarem 13 anos de idade.
A rua transforma-se no mundo, e é ali, nesse universo, que o filme se concentra. Diz a diretora: A rua desempenha um papel importante para a integração dos homens na sociedade. Só que meninos podem brincar na rua e meninas não. Em jogo a supremacia masculina oprimindo os valores femininos.
Personagens reaisSamira Makhmalbaf aproveitou a ausência do pai, que estava rodando O Silêncio fora do Irã, e pediu-lhe algumas latas de negativo emprestadas de seu estoque. Ele consentiu, imaginando que de sua investida surgisse um curta-metragem.
A filha, porém, tinha planos mais ousados. O que ela faz é revolver essa história de trevas, usando como personagens as mesmas meninas, a mesma assistente social, e os pais verdadeiros - o velho fanático, a mulher cega (que resmunga muito em seu eterno mundo de sombras e entendimento, dando uma espécie de som ao fundo das imagens de quase todo o filme).
São onze dias de filmagens. A equipe de Samira conquista as meninas pelo afeto, mas a ignorância dos pais deixaram marcas profundas. Como disse Leon Cakoff, coordenador da Mostra de Cinema de São Paulo, a história da revolução islâmica e de seus radicalismos, aparece novamente na pele de personagens inesperados e de reações igualmente imprevisíveis.
O material foi parar nas mãos do pai Mohsen, que assinou o roteiro e foi responsável pela montagem do filme. O lançamento internacional de A Maçã aconteceu em pleno Festival de Cannes de 1998.
O filme levou o Prêmio Especial do Júri, da 22ª Mostra Internacional de Cinema, de São Paulo. Ficou ainda entre os mais vistos e os dez mais votados pelo público. A Maçã serve como um alerta das tragédias surdas de cada dia, quando se perde os limites do bem e do mal, em nome de Deus. Morder do fruto da ciência pode ser o caminho que leva ao paraíso, afastando-se dos tormentos do inferno.
Emaranhados
dos Açoites
O diretor polonês Krzysztof Kieslowski morreu em 1976, ainda moço - tinha 55 anos. Foi para o túmulo sem ver seu segundo filme, A Cicatriz, rodado em 1976, ganhar o mundo. A censura que reinou em seu país por duas décadas emudeceu a obra por todo esse tempo, depois de duas exibições fora da Polônia, em 1978: no Fórum Internacional de Cinema de Berlim e no Festival de Cannes.
Aclamado internacionalmente a partir de Decálogo (1987-89), e com a trilogia A Liberdade é Azul (1993), A Igualdade é Branca (1994) e A Fraternidade é Vermelha (1994), além de A Dupla Vida de Véronique (1991) ele pode ser visto agora através de uma obra que faz parte do seu início de carreira.
Krzysztof Kieslowski era documentarista que trocou o gênero pela ficção por motivos éticos. A vida privada está fechada para o documentário, explicou-se na época. Enfim, esta era a estrada para ele ir além e fazer da tela o objeto de suas reflexões morais e políticas. Dizia o cineasta que fez o filme movido pela inquietação moral.
O enredo gira em torno do engenheiro Bednarz (Franciszek Pieczka), nomeado pelo Estado para dirigir a implantação de um complexo petroquímico numa velha aldeia. A localidade até então pacata transforma-se num centro nervoso; a comunidade rejeita as mudanças, preocupada que está com a ecologia. Bednarz sofre um choque, porque tudo que ele ansiava era apenas o bem comum. Acreditava no progresso e na abundância.
Aos poucos passa a se questionar, enquanto novos fatos amontoam-se de modo contrário - aparecem falhas na construção, a filha engravida, a mulher não quer voltar à cidadezinha onde, no passado, teve um caso amoroso. Mas são as dúvidas de suas próprias ações como tecnocrata, que o colocam numa situação ainda mais difícil com os poderosos do regime. Os comunistas qualificam suas dores de consciência como desvios.
A Maçã, de Samira Makmalbaf. Com Massouhmeh Naderi, Zahra Naderi, Ghorbanali Naderi, Azizeh Mohamadi, Zahra Saghrisaz. Cine Luz. Às 15, 17, 19 e 21 horas. Censura: 12 anos. Cicatriz, de Krzysztof Kieslowski. Com Franciszek Pieczka. Cine Ritz, às 15, 17, 19 e 21 horas. Censura: 14 anos.





