Neste ano de muito pedestrianismo (leia-se títulos de eficácia pouca ou nenhuma) na seleção da 65 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica de Veneza, e depois de um fim de semana congestionado por quantidade e qualidade duvidosa, a melhor notícia veio ontem com a exibição de ''BirdWatchers - La Terra Degli Uomini Rossi'' - literalmente ''Observadores de Pássaros - A Terra dos Homens Vermelhos'', co-produção com o Brasil e um dos quatro candidatos italianos no principal segmento competitivo. E o primeiro filme a responder e a justificar afirmativamente aquela polêmica questão: para que servem afinal os festivais?
O filme de Marco Bechis, drama que não prescinde de agudo olhar documental, foi recebido com muitos aplausos na sessão para a imprensa. O filme aos poucos se revela extremamente bem realizado, um libelo desprovido dos cacoetes e vícios ''socialistas'' que via de regra acompanham o cinema que sai em defesa de causas humanitárias.
Sem esquematismos, nada maniqueísta ou folclórico, em nenhum momento paternal, sempre enxuto e direto ao ponto, o argumento é essencial em sua simplicidade aparente: na região de grandes latifúndios em Dourados, Mato Grosso, aculturados remanescentes dos Guaranis-Kaiowá tentam sobreviver em meio às muitas dificuldades impostas pela inumana realidade que os confinou em asfixiantes reservas, onde por algum dinheiro encenam a vida selvagem para ricos turistas estrangeiros. Mas por trás da fachada do ''bom selvagem'' de Rousseau está uma imensa tragédia com muitas faces, consequência da perda da terra, da descaracterização de usos e costumes, da inadequação a um vida de privações, da depressão que leva jovens da etnia ao suicídio.
A coletiva que se seguiu foi outro ponto alto. Cinco índios Kaiowá que trabalham (e muito bem) no filme estão aqui, e deram seu recado de maneira candente. Um deles, Eliana Juca da Silva, deu um forte, inflamado depoimento-denúncia, emocionado às lágrimas mais copiosas e sinceras que esta sala de imprensa, sempre tão frívola e mundana, já testemunhou.
''BirdWatchers'', em 55 cópias já a partir de amanhã no circuito de salas italianas (o lançamento brasileiro está previsto para dezembro, pela Paris Filmes) é com certeza uma das melhores coisas ocorridas neste festival com diversos filmes na maioria deslocados, vale dizer: nenhuma lógica quanto a estarem perfilados na disputa do Leão de Ouro. Mas o desconcerto foi o que se viu ao longo do tedioso e frustrante fim de semana.
Por exemplo: eleito o ''queridinho'' do festival pela crítica européia (como o Oriente ainda fascina este lado do Adriático!), a animação japonesa ''Gake No Ue No Ponyo'' (Ponyo no Penhasco à Beira do Mar) é um clássico da série ''bonitinho mas ordinário''. Bem feitinho, engraçadinho, delicadinho, bem ingenuozinho, é o tipo de filme para levar ao cinema filhos até cinco anos, no máximo.
De certa forma, este desenho sobre a peixinha Ponyo que quer ser humana para ficar ao lado do garoto Sosuke desmerece a obra de seu realizador, Hayao Miyazaki, mestre de títulos como ''A Viagem de Chihiro''. É visivelmente devedor de ''A Pequena Sereia'' e ''À Procura de Nemo''. Vocês se lembram daqueles Tele Tubies? Pois é, o nível é por ali.
Outros dois italianos decepcionaram - todavia resta um. Não que os pesados dramas ''Um Giorno Perfetto'' e ''Il Papá di Giovanna'' sejam maus filmes, mas a pergunta insistente é: o que fazem na competição, já que ausentes os predicados que justificam uma seleção. São burocratas, seja no fundo ou na forma. Duas tragédias familiares, uma com o fascismo como pano de fundo, a outra nos dias que correm, dois dramas psicológicos com verniz de modernidade como a violência. Mas verniz, como se sabe, não resiste a uma raspada de unha.
Co-produção Brasil-China, ''Plastic City'', é um patchwork de gêneros e estilos, uma interminável viagem que acaba encontrando o nonsense e o surreal como porto inseguro. Na São Paulo dos produtos pirateados, dois chineses contrabandistas, pai e filho, enfrentam dificuldades e conflitos diversos. Indeciso entre o gângster movie e a viagem aos confins das estruturas familiares do poder e do dinheiro, o chinês Yu Lik Wai com certeza vai mexer na montagem deste filme: como está aqui, não atinge nem o grande público do circuitão e nem encontra abrigo nas salas de arte e ensaio.
E também tivemos um turco, ''Sut'' (Leite), de Semih Kaplanoglu, igualmente moderninho mas pouco eficaz. E ainda o bastante razoável francês ''L'Autre'' (A Outra), da dupla Patrick Mario Bernard e Pierre Trividic. Neste, um caso quase clínico de dissociação afetivo-existencial: mulher de 47 anos (a ótima Dominique Blanc) dispensa o marido (ele não quis a separação) porque já não o ama. Quer viver sozinha, por sua própria conta, como diz. Depois de algum tempo, ele inicia novo relacionamento, o que deixa a ex com compulsiva atitude ciumenta.
E afinal o made in USA ''Vegas - Based on a True Story'', de Amir Naderi, radicalmente independente, uma espécie de fábula à livre escolha do espectador: pode ser sobre a compulsão autodestrutiva, pura e simplesmente, ou sobre a compulsão pelo jogo (Las Vegas é o entorno) ou um parábola sobre o sonho americano. Homem tentando se curar do vício do jogo é informado sobre possível mala com um milhão de dólares escondida no jardim de sua casa. A ambição o leva a cavar obsessivamente em todo o terreno. Ao mesmo tempo em que abre buracos, vai enterrando junto a normalidade à sua volta, basicamente constituída pela família e pela própria sanidade.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza.

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