ReproduçãoChristopherWalken, mais zumbi do que nunca em ‘‘Os Chefões’’‘‘Os Chefões’’: improvável, apelativo e oportunista, o título brasileiro pode sair pela culatra, vendendo ao dono de locadora e por extensão ao espectador mais apressado o que anuncia só na aparência. Uma pena , porque ‘‘The Funeral’’ merece muito mais do que mera curiosidade escapista. E é bom que se anuncie para evitar aborrecimentos e arrependimentos tardios: não é um filme de gângsteres comum. Não tem os cacoetes do subgênero bastardo que floresceu à sombra frondosa dos legítimos chefões de Francis Coppola. Formalmente está mais para a vertente wise guys de Martin Scorsese, o que é, no mínimo, uma honrosa referência. E de fundo, não há referência próxima. É um filme de Abel Ferrara.
Cinco filmes em três anos. Confirmando a regra de que para se obter qualidade é preciso quantidade, Abel Ferrara e seu fiel escudeiro, o roteirista Nicholas ‘‘Nick’’ Saint John, se aventuraram desta vez por um universo aparentemente sem maiores novidades: a máfia ítalo-americana. Como havia feito no filme imediatamente anterior, ‘‘Invasores de Corpos’’, o diretor nova-iorquino trabalhou novamente as regras do filme de gênero com seu códigos, suas referências e suas passagens obrigatórias. Para que melhor se observasse a originalidade de seu enfoque.
Moral católica Nos anos 30, a família Tempio contempla com dor e ódio um de seus membros morto no caixão. É Johnny, o caçula (Vincent Gallo), morto a tiros na saída do cinema por um desconhecido. O mais velho, Ray (Christopher Walken, mais zumbi do que nunca...), veste uma máscara de dignidade para compassar a espera da vingança. Máscara lívida, olhar perdido. É ele o depositário de uma fatalidade ancestral, foi ele que ainda criança matou um homem a pedido do pai. Chez (Chris Penn), o do meio, deixa explodir uma cólera incontrolável. É o louco mais ou menos assumido, aquele que leva ao pé da letra o preceito paterno: a morte merece a morte. A partir de uma série de flashback , esta família vai refazendo o percurso do morto, sua independência, suas simpatias políticas incompatíveis com os interesses mafiosos.
Toda a ação se desdobra durante as horas do velório. Ali também estão as mulheres da família (Annabella Sciora e Isabela Rosselini), agregadas e atônitas em busca de um significado para contrapor ao conceito esmagadoramente presente do macho mafioso. Uma família que se fragiliza, se fragmenta e desmorona em poucas horas, expondo toda sua vulnerabilidade. Não são a força e o poder da Máfia que interessam a Ferrara. Ao contrário, suas fraquezas morais e sua debilidade é que estão no centro de gravidade de uma tradição que mistura honra, violência, machismo e religião. Está longe, aqui, a regiliosidade scorsesiana. Nem expiação nem redenção, nos domínios de Ferrara.. Simplesmente a absurda violência, e a morte com consequência.
Nenhum movimento bonito de câmera, nenhum falso suspense. Estilo seco, duro, quase ascético. Atores judiciosamente escolhidos, capazes de longas tiradas introspectivas. Um filme que tem uma história forte para contar, um filme que chega ao formato vídeo sem comprometer esta história.

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