Tragédia à italiana em "Rocco e Seus Irmãos"
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quarta-feira, 30 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 01 (AE) - "Rocco e Seus Irmãos", de Luchino Visconti, é mais uma obra-prima que chega ao Brasil com cópia nova graças à distribuidora Pandora. A antiga versão, disponível em vídeo, adotava a montagem norte-americana, que mutilava o original. "Rocco" havia passado em São Paulo apenas em mostras comemorativas, como a que aconteceu em 1991, com cópia emprestada da Cinemateca Uruguaia e sem legendas. Portanto, é, na prática, uma estréia, no Cineclube Vitrine. No contexto da obra de Visconti, "Rocco", de 1960, situa-se como continuação de "A Terra Treme", realizado em pleno pós-guerra (1947) e antecede "O Leopardo" (1963).
Os dois primeiros falam da "questão meridional", a divisão Norte-Sul, o notório preconceito do Norte industrializado e rico contra o Sul, pobre e agrário. O último é uma reflexão sobre a insularidade siciliana, tirado da obra, única e genial, de Giuseppe Tommasi di Lampedusa. Nos três, uma reflexão profunda do cineasta milanês sobre a Itália e sua falta de vocação revolucionária. Um senhor problema, convenhamos, para um intelectual marxista, como era Visconti, no entanto filho da nobreza milanesa.
Diz o poeta triestino Umberto Saba que seu país nunca fez uma revolução de verdade "porque os italianos não são parricidas; são fratricidas". Na intepretação, que passa do marxismo à psicanálise, seriam incapazes de matar (simbolicamente) o pai, ato que seria o parto do novo. Preferem agredir os irmãos e o fazem sem culpa nenhuma. "Rocco" é um pouco a mise-en-scne dessa tese. O pai da família Parondi já morreu. É um ausente e só se manifesta no luto um pouco convencional da matriarca, Rosaria (Katina Paxinou). Ausente, não afeta em nada o desenvolvimento da história. A figura forte é a mãe. Rosaria sai da Campânia natal e chega com quatro filhos a Milão. Vai ao encontro do quinto filho, Vincenzo, que já se encontra instalado na capital industrial italiana. Vem com ela Rocco (Alain Delon), Simone (Renato Salvatori), Ciro (Max Cartier) e Luca (Rocco Vidolazzi). Precisavam ser cinco, porque a certa altura, Rosária fala da família, dos cinco filhos unidos
"como os dedos de uma mão". A metáfora é forte e a cena, fortíssima. Mais ainda porque o espectador já sabe que o destino está engendrando um duro golpe contra a família Parondi e, no final, ela será tudo, menos unida. Simone apaixona-se por uma prostituta ocasional, Nádia (Annie Girardot). Ela o deixa e une-se a outro irmão, Rocco, o que desencadeia a tragédia. Visconti queria estudar a questão meridional, mas queria também fazê-lo sobre um pano de fundo trágico. Buscou uma atriz com impacto cênico de uma Medéia. Chamava Katina de "aquela Hécuba lucaniana, aquela Niobe meridional". Queria ouvir a voz do Sul profundo, por isso necessitava de uma mamma poderosa, apegada aos filhos como uma leoa à cria. Autoritária e altiva. E precisava, também, de um ambiente que respirasse violência. Por isso Simone, e depois Rocco, serão boxeadores. Baseava-se num dado de realidade: a maioria dos boxeadores italianos é de origem meridional.
Rocco é o personagem mais paradoxal da história. Quando Simone começar sua descida aos infernos, Rocco precisará do boxe
que ele detesta, para socorrer o irmão e tentar libertá-lo de seus credores. Por que odeia o boxe? Porque é o homem bom por excelência (e este é o ponto de diálogo de "Rocco e seus Irmãos" com "O Idiota", de Dostoievski). Repugna-lhe a violência. No entanto, precisará dela para tentar fazer o bem. Apenas tentar, porque entre tantas coisas, "Rocco" é também um comentário sobre a falência das boas intenções. Rocco tentará de tudo para salvar Simone. Mesmo depois de humilhado e ofendido
oferecerá seu amor em sacrifício ao irmão. Adotará o pugilismo e irá até o fim na defesa de Simone. Dificilmente alguém que tenha visto o filme esquecerá a expressão de Alain Delon quando reconhece que perdeu a parada e diz para si mesmo: "Adesso tutto finito". Agora está tudo acabado. É o ponto final dessa tragédia à italiana. O que virá a seguir será apenas uma coda, um fecho político que custou muita reflexão a Visconti.
No ano passado, Gianni Amelio venceu o Festival de Veneza com "Cos Ridevano" (Assim Ríamos). O filme é um diálogo perfeito e atualizado com "Rocco". Fala dos irmãos sicilianos que procuram vida melhor em Turim e acabam se desagregando em contato com a cidade cujos códigos não dominam. Prova de que a obra de Visconti deixou descendência estética. E de que os problemas que tocava no início dos anos 60 continuam intactos no fim do milênio.


