Festa junina já foi sinônimo de bombinha e buscapé para se soltar na noite de São João, fazer balão colorido, cortar bandeirinhas para estender na rua, aprontar o figurino da quadrilha. Foi época de comer cuscuz e bolo de milho, tomar quentão e pular fogueira, mandar correio elegante e subir no pau-de-sebo. Hoje, parece que tudo isso está fora de moda. As autênticas festas juninas são raras, apesar de São João marcar o calendário como uma das grandes datas brasileiras festejadas pela população, ao lado do Carnaval e do Natal.
Além das características peculiares, as festas juninas têm origem desconhecida para muita gente. Tradicionalmente ligada a santos padroeiros – São João, Santo Antonio e São Pedro – essas festividades chegaram ao Brasil junto com os colonizadores. A herança portuguesa ganhou peculiaridades em diversas regiões do país, tornando-se um dos grandes acontecimentos do ano, principalmente no Nordeste, onde até hoje a manifestação é intensa. No Sul do Brasil, a tradição perdeu terreno na autenticidade e as características originais das comemorações juninas sofreram adaptações.
Resgatar a origem e a tradição das festas juninas é a preocupação da professora de Cultura Brasileira da Universidade Estadual de Londrina, Raimunda de Brito Batista, que amanhã dará uma palestra sobre o assunto na cidade. Ela foi convidada pela Biblioteca Pública Municipal para falar sobre ‘‘Festas Juninas’’ às 10 horas, no Teatro Zaqueu de Melo. Paraibana de Campina Grande, Raimunda acompanhou de perto muitas das grandes festas juninas no Nordeste. Ela mudou-se para São Paulo no final da década de 60 e radicou-se em Londrina há 29 anos. Hoje, sua área de atuação profissional abrange estudos e pesquisa sobre manifestações culturais brasileiras.
Raimunda Brito explica que as festas juninas são baseadas na trilogia Santo Antonio, São João e São Pedro, aos quais as pessoas recorriam para fazer pedidos. O primeiro, festejado no dia 13 de junho, é o conhecido ‘‘santo casamenteiro’’. ‘‘Em Lisboa, onde viveu no século 12, Santo Antonio é conhecido também como Santo Antonio de Lisboa e Santo Antonio de Pádua’’, diz. ‘‘A tradição de festejá-lo no Brasil veio na mala dos colonizadores. Aqui, se misturou e ganhou peculiaridades’’, conta.
Mas o santo mais popular das festas juninas é São João, comemorado no dia 24 de junho. ‘‘Esse tem aura de santo de maior prestígio e poder, porque era primo de Jesus Cristo. Quando nasceu, sua mãe acendeu uma fogueira e colocou um mastro para avisar aos parentes de sua chegada’’.
A festa de São João é uma tradição ibérica. No Brasil, tornou-se muito popular e ganhou até uma dança típica – a quadrilha (antiga dança da corte). O casamento caipira também é mais característico nos festejos de São João. Não seria mais apropriado para Santo Antonio? ‘‘Depende’’, responde Raimunda. ‘‘Vai ver que o pedido é feito para Santo Antonio e realizado em São João’’, brinca.
O terceiro santo da trilogia junina é São Pedro – o chaveiro do céu. ‘‘É aquele santo humano, que não tinha muita firmeza. Cristo disse que sobre ele ergueria sua igreja’’, conta, citando uma passagem da Bíblia. A tradição de festejar São Pedro, no dia 29 de junho, não é tão comum no Sul do Brasil. Raimunda Batista salienta que no Nordeste a popularidade é bem maior e várias cidades têm o santo como padroeiro.
Inicialmente de cunho religioso, as festas juninas ganharam, com o tempo e as peculiaridades, um aspecto profano. ‘‘No Nordeste ainda acontecem as procissões, mas a tradição sofreu alterações’’. De qualquer forma, os elementos dessas festas mantêm nas histórias suas características originais. A fogueira, por exemplo, é acesa em homenagem aos santos e também têm a função de aquecer e iluminar o local.
Raimunda Batista lembra ainda do pau-de-sebo (brincadeira de subir em um mastro escorregadio), do quebra-panela, da dança das fitas (em volta do mastro), do Jogo do Bacamarte (homens dançavam com as armas) e das argolas, do correio elegante e da cadeia do amor. ‘‘Como as festas duravam o mês todo, era preciso muitas atrações. Eram as chamadas brincadeiras’’.
As músicas típicas das festas juninas brasileiras eram o forró e canções do imaginário popular. Hoje, o som da sanfona chegou até a ser trocado pela atual sonoridade sertaneja, axé-music ou o forró moderno (com direito a guitarra).
Outro elemento fundamental dessas festas é a comida. Raimunda Batista salienta que a base de todas as delícias era o milho, típico da época: pamonha, cuscuz, canjica, pipoca, curau, bolo. Tudo em homenagem aos santos. Depois, o cardápio junino sofreu variações, chegando até ao cachorro-quente vendido em carrinhos.
O auge da festança costumava ser a quadrilha, o momento mais esperado da noite. Ao som da sanfona, o marcador iniciava a dança, dando todas as coordenadas aos pares participantes. A quadrilha é uma contradança de salão, de origem francesa, muito em voga no século 19. Foi trazida para o Brasil por mestres de orquestras de danças francesas, tornando-se logo a preferida das sociedades palaciana e burguesa.
A quadrilha era dançada com marcações à francesa. Mas isso só até os compositores darem a ela um acentuado jeito brasileiro. Com a sua popularização, surgiram variantes no interior do País, como a tradicional quadrilha caipira dançada nas festas de São João.
Um fato curioso nas festas juninas diz respeito à indumentária usada nas quadrilhas. É que, ao contrário do que acontece no Sul e outras regiões do Brasil, no Nordeste ninguém vestia roupa esfarrapada e se ‘‘pintava de caipira’’. ‘‘Hoje sim essa característica chegou lᒒ, avisa Raimunda. ‘‘Mas o São João era mais festejado que o Natal. As pessoas compravam vestes novas ou buscavam sua melhor roupa e faziam uma comida especial para a festa’’, observa.
Chegando ao final do mês, amanhã é dia de São Pedro. Vale a tentativa de fazer um último pedido. Mesmo sem festa, quem sabe...
• ‘‘Festas Juninas’’ – palestra com Raimunda de Brito Batista, professora de Cultura Brasileira da Universidade Estadual de Londrina. Amanhã, às 10 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 413), em Londrina. Promoção: Secretaria Municipal de Cultura/Biblioteca Pública Municipal.

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