Tradição pantaneira
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 1997
Londrina 
O Pantanal Matogrossense está em festa desde sábado, quando começou em Corumbá (430 quilômetros de Campo Grande - MS) a tradicional festa de São João, que alterna entonações de fé e folia na interpretação coletiva do hino ao santo.
Apesar de pouco difundida no contexto nacional, a festa tem uma peculiaridade que a destaca das demais. Nesta comemoração, o profano domina o religioso e as ladainhas e rezas se misturam à irreverência do povo e a um batuque carnavalesco que termina no rio Paraguai. É lá que o santo é banhado, como símbolo do batismo.
E é justamente na madrugada de hoje para amanhã que a festança atinge seu ponto alto. O Porto-Geral, um dos principais pontos turísticos de Corumbá, torna-se palco da manifestação ao receber os fiéis que carregaram o andor do santo. Nessa procissão, que têm à frente imagem ou quadros de São João, os fiéis descem as ladeiras no sentido bairros-centro seguidos por grupos musicais. O som das caixas, surdos e tamborins, juntamente com instrumentos de corda (violão ou cocho - espécie de viola de braço com cordas de tripa de macaco ou quati), se mesclam ao som trombones, pistões e saxofones. É nessa hora que a tradição carioca se mistura às manifestações religiosas do São João pantaneiro e o batuque toma conta da festa.
Festejos e reza Aliás, essa curiosidade da influência carioca é explicada pelos pantaneiros com muito orgulho. Como a navegação fluvial era o único meio de transporte e de acesso à região até meados deste século, o corumbaense aproximou-se muito do Rio de Janeiro e adquiriu características como a malandragem, a ginga e o samba-no-pé carioca.
A situação parece estranha, visto que Corumbá fica a 1.800 quilômetros distante do Rio, mas os pantaneiros gabam-se de realizar um dos melhores carnavais do interior brasileiro. Eles copiam até mesmo nomes característicos da cidade carioca para suas escolas de samba (Marquês de Sapucaí ou Cinelândia) e escolhem times de futebol como Vasco ou Flamengo para serem torcedores.
Folias à parte, a festa folclórica não esquece a religiosidade. Os festejos do São João começam com novenas nas casas e, na noite de hoje, a família do festeiro e os convidados agrupam-se para as primeiras cerimônias. Dentro das casas começa a reza, enquanto a imagem do santo é colocada num altar enfeitado de rosas e fitas vermelhas e brancas. Mas é perto da meia-noite que as diversas procissões se juntam e seguem em direção ao Porto-Geral. Velas acesas e rojões acompanham o canto de São João.


