Tradição e magia em festival indiano
TRADIÇÃO E MAGIA
EM FESTIVAL INDIANO
Dois dos mais importantes grupos de dança indiana se apresentam em Londrina
Da Redação
O Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Estadual de Londrina está trazendo dois dos melhores grupos de dança indiana para apresentações no Festival de Dança Bharat Natyam e Kathak, que acontece amanhã e sábado, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde. Os grupos, com 23 bailarinos, estão acompanhando o presidente indiano Knaraian em sua visita oficial ao Brasil.
O Bharat Natyam é o mais antigo estilo de música clássica indiana e sua apresentação é acompanhada de música Carnatic, típica do sul da Índia. Segundo o professor Eduardo Judas Barros, do Núcleo de Estudos, Bharat Natyam é uma dança vibrante, que exige um grande preparo da bailarina. O corpo é visualizado como se fosse feito de triângulos. Um sobre o outro, embaixo do torso, outro triângulo para baixo, a partir dos braços, e um subentendido, explica.
A palavra Bharat, define Barros, pode ser dividida em Bha (Bhava, a expressão), Ra (Rage, modo musical) e Ta (Tale, o ritmo). Já a palavra Natya é derivada de Nat (que quer dizer mover ou atuar) e representa a manifestação dramática de discurso, música e dança.
O grupo de Bharat Natyam tem à frente a bailarina Malavika Sarukkai, que dança desde os 12 anos e hoje é um dos expoentes deste estilo. Além das participações em diversos festivais nacionais e internacionais, a dança de Malavika foi apresentada no programa norte-americano World Dance e elogiada pela revista Time e pelos jornais New York Times e The Los Angeles Times.
Outra atração do espetáculo em Londrina é o Kathak, uma forma de dança clássica do norte da Índia, que dá ênfase ao trabalho dos pés. O professor Judas Barros conta que, durante o regime muçulmano, os Kathaks foram convidados a dançar nas cortes, onde a dança foi transformada em uma arte estilizada, passando de ritual do tempo para uma forma de entretenimento. O guru ou mestre da dança Kathak é Maharaj Bindadin, autor de inúmeras canções de amor e devoção que atualmente são parte integral do repertório Kathak.
Barros lembra que a técnica do corpo físico nesta dança é muito bem definida e equilibrada. O corpo fica ereto e os movimentos dos braços são afiados e líricos. Há uma combinação de movimentos lineares e circulares que podem formar a dança simultaneamente, concisa e rápida, melódica e fluida.
Kathak vem de Khata (contar histórias). No passado, era uma dança praticada somente pelos homens. Patrocinada pelos imperadores do Norte da Índia, a dança se desenrola em volta do tema de amor de Radha e Krishna.
A principal característica da apresentação Kathak é o contato imediato que o bailarino estabelece com o público. Ele recita as sílabas rítmicas, que posteriormente transforma em dança, adianta Barros. Em Londrina, esta dança será acompanhada pela música de Atul Desai, reconhecido vocalista e compositor indiano.
O grupo de Kathak é liderado pela bailarina Kumudin Lakhia, uma das mais famosas neste estilo de dança. Aos 50 anos de carreira e apresentações em 40 países, Lakhia encerrou seu trabalho como bailarina e passou a ser coreógrafa. Além da produção de mais de 50 espetáculos, ela tem uma escola de dança na Índia, a Kadamb Dance Centre.
Alguns instrumentos curiosos são usados como acompanhamento no espetáculo. O pakhawaj é um tambor de duas faces que tem corpo ressonante formado por um cilindro cônico de madeira. As faces são cobertas com pele de cabra (na face direita há também uma mistura de limalha de ferro, cola e carbono; na esquerda, uma pasta de farinha de trigo e água é aplicada antes da apresentação).
Outro exemplo é o sarangi, tipo de instrumento de corda curvo, esculpido a partir de um bloco de madeira. A parte inferior do bloco é coberta com pergaminho, o meio com madeira e no alto há uma caixa na qual estão fixadas as cravelhas. O sarangi tem ainda quatro cordas feitas de tripa e é tocado com um arco de crina de cavalo. O timbre deste instrumento é o que mais se assemelha à voz humana. Além destes, há o tabla (par de tambores), o sitar (tipo de alaúde com sete cordas), a flauta de bambu e o acordeón.
A dança na Índia é uma das formas de arte mais antigas e tem, até hoje, conservado seus fundamentos e filosofias básicas com disciplina rigorosa. É a fusão de arte, religião e filosofia que constitui a tradição sagrada da milenar cultura indiana.
Eduardo Judas Barros conta que a Índia sempre incorporou o princípio proposto em upanishads Devi Bhutna Devan Yajet, que quer dizer tornar-se deus para adorar o deus. E a dança é considerada uma forma de adorar aos deuses, com expressão de veneração e alegria, diz.
A Índia possui uma grande quantidade de formas de dança estilizada, porém, cada uma tem um estilo próprio. Mas todas elas se baseiam em nove rasas ou emoções: hashya (felicidade), krowda (zanga), bhibhata (aborrecimento), bhaya (medo), showka (tristeza), viram (coragem), karuna (compaixão), adbhuta (devaneio) e shanta (paz).
O professor Barros explica também que, através da dança, o homem consegue se sintonizar com o Cosmos, encontrando dentro do seu corpo uma fonte de poder transcendental que se tornou a verdade de todos os tempos. Na sua opinião, a tradição sagrada das danças indianas são manifestações vivas da cultura mística do País. É nesse sentido que se pode dizer que a dança clássica na Índia é uma expressão eloquente de uma civilização antiga cuja sabedoria atemporal continua a evocar a apaixonada busca do homem por uma identidade consciente com Deus.
O Festival de Dança Bharat Natyam e Kathak é uma promoção do Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da UEL, com apoio do Conselho Indiano para Relações Culturais (ICCR) e Embaixada da Índia, com patrocínio do Banestado.
Festival de Dança Bharat Natyam e Kathak. Amanhã e sábado, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina. Com participação de 23 bailarinos. Ingressos a R$ 10,00. Mais informações no Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Estadual de Londrina, pelo fone (043) 371-4599.





