Toda a história da arte moderna em diante, é uma história de rupturas. O próximo passo, o movimento seguinte, a vanguarda, a novidade. São essas as características mais marcantes do modernismo: a repetição do novo. O que não deixa de ser um tremendo paradoxo. Enquanto, por um lado, cria-se condições de rupturas, sempre em nome da destruição histórica, por outro lado, nunca houve por parte da chamada ''civilização ocidental'' uma preocupação tão profunda em resgatar valores do passado.
Tudo se transforma em mercadoria de consumo na ''sociedade de espetáculo'', como diria Guy Debord, filósofo, agitador social, diretor de cinema e um dos fundadores do movimento Internacional Situacionista, que, desde sua fundação, no final dos anos 50, até o final do movimento, em 1972, pregava uma ação que contivesse, em seu discurso teórico e prático, uma tomada de posição política, ideológica e cultural, ao mesmo tempo. Era preciso, segundo a IS, mudar não só a prática artística, como também a prática política. Mas aqui já não mais como oposição entre dualidades onde uma deve vencer a outra, mas na possibilidade de superação das oposições.
Dessa forma, como em um jogo intrincado de xadrez, é preciso prestar atenção às peças que compõem o tabuleiro e ver as condições e posicionamentos em que se encontram. Por exemplo, a própria globalização que levou a uma massificação de um padrão de consumo e qualidade, também abriu campo para uma maior disseminação de ''culturas''. Os meios de comunicação e informação se tornaram mais rápidos do que a possibilidade de controlar, deter, filtrar e normatizar todo o fluxo de situações que são criadas, o tempo todo, pelos mais diversos meios. Assim, é preciso compreender que até um erro histórico faz parte da história. E são justamente essas falhas os melhores aliados desse processo de desconstrução dos mitos fabricados pela história.
Talvez essa ''disfunção'' dentro do sistema é que tenha gerado a possibilidade da existência de uma arte ''desmaterializada'', precária, periférica, perecível e ''pobre'' em sua constituição física, embora não menos potente naquilo que se propõe, que é a abertura de espaços includentes, não nuclearizados e de apropriação da tradição histórica como experiência inovadora. Hoje, seja em qualquer cidade no interior do Brasil, ou da Polinésia ou da Malásia, Europa ou EUA, é possível pensar por aproximações que acabam se tornando uma mesma ''corrente'' de forças convergentes. Aliás, é justamente por essas correntes, que essas forças ''de dentro'' são obrigadas a se abrirem para essas ''de fora''. São elas que ainda possuem oxigênio para renová-las. Ainda que suas intenções sejam a de, ao final, inverter certas posições e cânones consagrados.
Se o corte proposto por Picasso (1881-1973) em ''Les demoiselles d'Avignon'', de 1907, deve ser levado em consideração como a ''primeira ação de ruptura na história da arte moderna'' - como salienta Giulio Carlo Argan, no livro ''Arte moderna'' - com seus planos cortados de cor e formas, dando início a uma nova percepção de se pensar o espaço que vai desaguar justamente no cubismo, outros cortes após este devem ser levados em consideração.
Por exemplo, o pintor e escultor nascido argentino Lucio Fontana (1899-1968) com seu gesto - denominado ''Concetto Spaziale'' (1949) - de cortar a tela, a superfície da pintura, mostrando o outro lado do espaço e, ao mesmo tempo destruindo a metafísica da superfície plana da pintura, cria uma nova percepção da realidade, que desconstrói a história da arte e a afirma, ao mesmo tempo. Certamente sua ascendência latino-americana teve influência sobre este seu gesto decisivo. Assim como a artista brasileira Lygia Clark (1920-1988), que, com um simples gesto de cortar com uma tesoura uma fita de Moebius, intitulada ''Caminhando'', de 1964, propõe uma continuidade de ruptura que tende ao infinito, pensando o trabalho de arte muito mais como processo de continuidade do que como objeto artístico. Obviamente, o fato de ser ''periférica'' e ''a-histórica'' em relação aos grandes centros de debate sobre arte a levou a criar uma estratégia de fazer um trabalho que pudesse dar novos significados a esse próprio debate sobre o lugar da arte.
Hoje em dia, isso ganha uma dimensão muito mais preponderante e urgente, e novas maneiras de atuação estão sendo deflagradas a todo instante. É assim que, ao desfazer, a arte caminha, fazendo. Propondo sempre um novo desafio dentro de um processo em continuidade, mas, cada vez, percebido de maneira mais abrangente.
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