TRADIÇÃO - Fandango caiçara, bem cultural
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de agosto de 2008
Denise Ribeiro<br> Equipe da Folha 
No caminho para ser o primeiro bem cultural de natureza imaterial do Sul do Brasil a ser registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o fandango caiçara segue se renovando como referência de cultura para as comunidades do litoral do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Entre os dias 24 e 27 de julho, grupos dos três Estados se reuniram em Guaraqueçaba, no litoral paranaense, durante o 2º Encontro de Fandango e Cultura Caiçara, para trocarem informações em mesas de debate e aprenderem novas modas e marcas, no palco ou no salão de baile.
Também encontrado no Nordeste do País, o fandango caracteriza-se por melodias cantadas em versos ao som da rabeca, da viola, do adufe (ancestral do pandeiro), acompanhadas por uma série de coreografias, chamadas marcas. O fandango caiçara, como é chamado no Sul e Sudeste, conta ainda com a batida de tamancos de madeira, calçados apenas pelos homens. O resultado é uma música alegre criada para animar os bailes ao final de um dia de trabalho em mutirões na roça.
Hoje, o fandango é dançado em grupos organizados e tem até associações. A festa, originalmente promovida para recompensar os vizinhos pelo trabalho de um dia inteiro, ou para comemorar datas especiais como o Carnaval, deu lugar a apresentações em palcos e salões. ''A gente ia na casa dos fandangueiros. Hoje, como manifestação espontânea, é muito difícil encontrar'', observa Rogério Gulin, professor e violeiro, integrante do projeto Museu Vivo. Patrocinado pela Petrobras, o Museu Vivo fez o mapeamento das comunidades e casas onde o fandango ainda é realizado em seu formato original ou adaptado aos novos tempos, nas cidades de Morretes, Paranaguá, Guaraqueçaba, Cananéia e Iguape, as duas últimas no litoral de São Paulo. O projeto resultou em um livro e um CD lançados durante a primeira edição do Encontro, em 2006.
Durante o 2º Encontro, foi oficializado o pedido de registro do fandango como bem cultural imaterial junto ao Iphan. A expectativa dos pesquisadores envolvidos no processo, segundo Joana Corrêa, uma das integrantes do Museu Vivo e da Associação Cultural Caburé, do Rio de Janeiro, é obter o registro até a próxima edição, em 2010. ''Apesar de a forma ter mudado, a essência dele continua. Há a alegria de estar junto, de reunir os mais velhos e os mais jovens'', defende Joana.
Um dos mais representativos fandangueiros do Paraná, Leonildo Fidelis Pereira, de 65 anos, faz a sua parte mobilizando primos, filhos e netos para manter a tradição. ''Eu já estou um pouco cansado, mas meu grupo está forte ainda, graças a Deus. Erguer o fandango para nós é uma bandeira que não deve ser esquecida. É uma bandeira das raízes da terra'', convoca o líder da família Pereira, que hoje é referência do fandango paranaense. A família vive na comunidade de Rio dos Patos, em Guaraqueçaba.


