São Paulo, 09 (AE) - Oásis, na imprensa, é o lugar onde o olho encontra espaço em branco, as letras desenham no vazio um poema, e vem tudo enfeixado num tablóide com capa assinada por artista plástico. Está longe de ser a definição de um jornal moderno, no qual mesmo as seções literárias trepidam com o nervosismo do dia-a-dia e os assuntos são ditados pelo mercado.
Mas foi exatamente esse jornal que saiu das mãos de Carlos ávila durante quatro anos e lhe valeu a indicação para o Prêmio Multicultural Estadão como fomentador cultural. Chama-se "Suplemento Literário de Minas Gerais" e vai deixar saudade: ávila já não é seu editor.
Com 12 páginas de papel jornal, um editor pode fazer muita coisa, até mesmo vender anúncio. Ao colocar a mão na massa gráfica do "Suplemento", rodado em rotativa antiga, Carlos ávila foi muito mais artesão do que poeta e jornalista. Ainda bem. Ele modelou matéria-prima para o espírito e recuou no tempo, lembrando às pessoas que ainda há espaço para bom gosto, refinamento cultural e ócio para criação. "Poesia não vale nada, mas vale tudo", diz ele. Algumas, imponentes, ocupavam página dupla, em corpo alargado.
Em parceria com o designer e poeta mineiro Guilherme Mansur, ávila tinha meta definida: "Dar conforto ao olho do leitor". E ao espírito. "O poeta em si é um designer da palavra e não há nada mais gritante do que a eloquência de um poema sobre o branco", afirma. As páginas centrais, chamadas Arquivo, vinham com o "u" desenhado na forma latina antiga de "v", soando "arq-vivo", em conexão com a Minas mais criativa do passado.
Era um jornal mensal, muitas vezes com texto de lado a lado e sem título, conectando o grafismo à história da literatura mineira. As fotos, como uma de Henry Miller (um de seus gurus), ocupavam uma página inteira. "Abríamos e fechávamos o jornal com um ensaio", orgulha-se ávila. "Nem sempre de literatura, mas ligado a artes plásticas, cinema, música erudita ou fotografia, ousando com uma liberdade que a grande imprensa não tem".
O "Suplemento" tinha um slogan: ser tudo o que a grande imprensa não era. Abria espaço para tudo o que era lixo na grande imprensa, "como a poesia, sem valor de mercadoria, um luxo".
O "Suplemento" existe há mais de 30 anos, mas teve poucos anos de independência da publicação oficial e ainda sobreviveu ao crivo da censura dos militares. O poder nanico dessa publicação teve três momentos de pico - no fim dos anos 60, nos anos 80 e sob a direção de ávila. Ele entrou num "Suplemento" de 2 mil exemplares e, quando o deixou, no fim do ano passado, a tiragem era de 6 mil.
Aos 43 anos, filho de dois escritores mineiros, Laís Correa de Araújo e Afonso ávila, e crescido em atmosfera literária, Carlos ávila define-se "um escriba". "Segundo Oswald de Andrade, poeta é um homem sem profissão". Seus três livros de poemas, "Aqui e Agora" (edições Dubolso, 1981), "Sinal de Menos" (Gráfica do Fundo de Ouro Preto, 1989) e "ásperos" (inédito) vão sair pela Perspectiva com o título "Bissexto Sentido".

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