Trabalho feito com lirismo e suavidade
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segunda-feira, 09 de julho de 2001
De Curitiba 
Convidados para fazer a trilha musical do balé O Grande Circo Místico, que projetou internacionalmente o Ballet Teatro Guaíra, Chico Buarque e Edu Lobo produziram alguns números que nasceram clássicos. Entre eles, Beatriz, obviamente. A Dança da Meia-Lua, outra criação do BTG, novamente reuniu os dois compositores, e por fim, O Corsário do Rei. Nessas ocasiões Edu foi o responsável pelas canções; Chico pelas letras.
Dessa profusão de maravilhas, beirando umas 40 músicas, a cantora Marianna Leporace e a pianista Scheila Zaguri fizeram um delicioso apanhado e levaram ao CD São Bonitas as Canções. O título foi emprestado de Choro Bandido e cai como uma luva para um disco feito de lirismo e suavidade.
Tudo neste trabalho é refinado: a interpretação de Marianna, o piano de Sheila, os arranjos, o encarte com reproduções de obras de Orlando Teruz, retratando circos oníricos, como se mostrassem suas atordoadas funções suspensas nos espaços.
São Bonitas as Canções começa e termina com Na Carreira, literal tradução da vida cigana dos artistas, que passam feito cometas pelos céus que envolvem as platéias. Jamais quebram a sina andarilha: Hora de ir embora/ Quando o corpo quer ficar/ Toda alma de artista quer partir/ Arte de deixar algum lugar/Quando não se tem pra onde ir.
O repertório inclui Beatriz (Ah, diz quantos desastres tem na minha mão/ Diz se é perigoso a gente ser feliz), Valsa Brasileira, Meia-Noite, O Circo Místico, A História de Lily Braun, Abandono, Tororó.
Tem uma brincadeira sobre Nega Maluca aquele velho sucesso carnavalesco: Estava jogando sinuca/ Uma nega maluca me apareceu/ Trazia um filho no colo/ E dizia pro povo/Que o filho era meu que é Nego Maluco, única música que não foi feita para nenhum dos três espetáculos.
Chico Buarque cria uma situação semelhante àquela vivida pelo sujeito dos anos 40. Aqui o protagonista está se divertindo jogando vinte e um quando aparece um nego maluco. Vinha com um baita dum rádio no colo/ Tocando um samba a mil/ E dizia pro povo que o samba era meu.
Chico dá o ar da graça dividindo o microfone com Marianna em Tororó e Edu Lobo em Na Ilha de Lia, no Barco de Rosa. Assim como eles, contribuem para a beleza do disco Cacá Colon (bateria), Daniela Spielmann (flautas e sax), Fernando Leporace (baixo), José Stanek (gaita) e Mila Schiavo (pandeiro e tamborim).
Com essas participações o disco perde o caráter de recital de piano e voz e ganha uma nova sonoridade mais intensa. Nem por isso afasta-se das características que lhe dão um clima de concerto camerístico. Mesmo com os artistas vivendo suas paixões mais desiguais e abandonando tudo, sem jamais dizer adeus, como reza Na Carreira. No mínimo, indispensável. (Z.C.L.)


