São Paulo, 22 (AE) - A favela é tão convincente no filme de Cacá Diegues que uma das boas surpresas de "Orfeu" é constatar que se trata de uma favela cenográfica, mandada construir pelo diretor de arte, Clóvis Bueno. Formado em engenharia, Bueno é o primeiro a admitir que teve uma formação humanística que o marcou. Gosta de dizer que é intuitivo, mais do que científico. É um dos grandes diretores de arte do Brasil.
A função é nova e ainda não está perfeitamente delimitada, ele diz. Entre os mais de 50 filmes de que participou estão "O Beijo da Mulher Aranha" e "Brincando nos Campos do Senhor", de Hector Babenco, e "Amor & Cia.", de Helvécio Ratton. Pelo último foi premiado no Festival de Brasília do ano passado. Quando fez "Mulher-Aranha", Bueno ainda não era diretor de arte. Era figurinista e cenógrafo. A função de diretor de arte surgiu e consolidou-se no cinema brasileiro nos últimos dez anos. O diretor de arte comanda uma equipe de cenógrafos, figurinistas e maquiadores. É o responsável pela unidade visual do filme. Trabalha em estreita colaboração com o fotógrafo e o diretor.
O fotógrafo de "Orfeu" é o mesmo dos filmes de Pedro Almodóvar, o grande Afonso Beato. Bueno construiu um cenário vertical, a favela, que Beato e Diegues filmam na horizontal, por meio da tela larga. Bueno observa que há uma tensão muito interessante entre essas formas. A favela consumiu menos de 10% do orçamento do filme (R$ 7 milhões). Diegues decidiu-se por ela desde o começo. "Não é impossível filmar nos morros cariocas, mas é arriscado", ressalta Bueno. Além das facilidades técnicas para colocação da câmera, a favela cenográfica fica a salvo das disputas pelo poder no morro.
A favela foi construída na Colônia Juliano Moreno, na região de Jacarepaguá, na mesma fazenda em que a médica Nise da Silveira construiu o seu Museu do Inconsciente. Foram mais de mil metros quadrados de área construída, cerca de 150 barracos. Bueno não utilizou o filme de Camus como referência. O filme antigo foi rodado numa favela da Urca que não existe mais. Naquele tempo, os barracos eram de madeira, com telhado de zinco. Hoje, as casas são de concreto e alvenaria. Persistem as ruelas estreitas e os becos labirínticos, servidos, no filme de Diegues, por uma rudimentar escada de alvenaria e uma vala escura que atravessa a praça central, cercada de biroscas, uma locadora de vídeo e uma igreja evangélica.
"Foi trabalho de pedreiro mesmo", diz Bueno. A idéia era manter a favela após a filmagem, mas ela foi desativada. Bueno fala tudo isso pelo telefone, embora esteja atualmente em São Paulo, participando, como diretor de arte, com a mulher, Vera, do filme "Castelo Rá-Tim-Bum". O castelo ainda não foi liberado para a imprensa. O set continua fora do alcance de fotógrafos e jornalistas, mesmo que a rodagem já dure algumas semanas.
"É um trabalho completamente diferente", diz Bueno. Enquanto a favela tem raízes na realidade, o castelo é produto do imaginário do diretor de arte. "Uma fantasia", ele sintetiza. Essa diversidade é que o encanta. Cada filme passa a ser um desafio novo. Entre os mais recentes, há uma produção estrangeira: "Le Jaguar", do francês Francis Veber, rodado na Amazônia, onde Bueno também construiu a palafita cenográfica de "Brincando nos Campos do Senhor". (L.C.M.)

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