Trabalho de parto na tela
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de julho de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Cláudia GuimarãesSérgio Oliveira interpreta coreografia do projeto Trabalho de Parto, que começa a ser mostrado hoje em Curitiba.A vida é uma longa espiral que se direciona para o alto. À medida que essa espiral é escalada, tormentas e paz atravessam o homem. Trabalho de Parto, projeto artístico de fôlego concebido pela artista plástica Cláudia Guimarães, fala exatamente disso, da lucidez e da loucura na procura interior pela harmonia e equilíbrio. Um filme de 14 minutos, rodado em 35mm, que será apresentado hoje, às 10h30, no Cine Plaza, em Curitiba, começa a desvendar a grande obra de Cláudia.
Esta é a primeira peça de um projeto que começou a ser arquitetado há três anos. Ele reúne, além das artes plásticas, outras linguagens - a da música, dança, fotografia e cinema. Dirigido pelos irmãos Willy e Werner Schumann, o filme mostra a performance do bailarino Sérgio Oliveira, com música de Roberto Burgel.
As cenas se passam entre imensas telas criadas por Cláudia que revelam, através das cores, as sensações e sentimentos que acometem o íntimo humano. O bailarino, neste caso, seria apenas uma célula, um ser assexuado, materializando a forma imaginada pelo artista. A música dá-lhe alma.
Imensas, as telas de composições irregulares, pintadas em vermelho, amarelo, branco, azul e preto correspondem respectivamente a um tema: Paixão, Desejo, Toque, Abismo e Rompimento. Por esses territórios todos, fatalmente, atravessam. Como se fossem leis das mais imperativas - não há como fugir, porque representam a vida.
Quadros e fotografiasTrabalho de Parto não se encerra no filme. Dia 8 de agosto, às 20h, no Memorial de Curitiba, haverá a abertura da exposição de suas cinco telas gigantescas, que chegam a medir até 9 metros de altura. Elas estarão amarradas ao teto por cabos de aço. Só mesmo o Memorial para ter espaço suficiente para trabalhos dessa dimensão.
Perguntavam para mim, por que uns quadros tão grandes? E eu respondia que eram o tamanho do grito que eu precisava dar, conta a artista. O bailarino Sérgio Oliveira fará ao vivo a performance que contará novamente com a música de Burgel e, no final, será exibido o filme.
O projeto tem seu terceiro momento no dia 12 de setembro, às 19h, no Museu da Imagem e do Som, quando mais uma vez haverá exibição do filme, e uma exposição de fotografias realizadas durante as filmagens. Claudia Guimarães e João Thibes assinam os instantâneos.
A vidaAs etapas sucessivas de Trabalho de Parto são marcadas pelo objetivo de sua autora de resgatar a arte, que aos poucos vai se acabando. Os filmes de arte, por exemplo, estão esquecidos. É preciso tomar conta desse espaço que aos poucos vai sendo esquecido. Busca-se a emoção do espectador, cada qual dando um significado para aquilo que vê e sente.
Cláudia Guimarães explica que são os ciclos do homem dentro da própria vida que compõem o Trabalho de Parto. Sente-se as garras da solidão no corpo desnudo do bailarino, defrontando-se com os tamanhos enormes das telas/sentimentos.
A autora concorda que a solidão está presente. O homem, por natureza, é um animal solitário, e tem que caminhar para dentro de si até se encontrar. Porém, há um mito de se buscar o entendimento no exterior, no outro, quando o que precisa ser descoberto está dentro de nosso próprio deserto. Deve-se vasculhar o espírito, conhecer suas planícies e subterrâneos.
É um exercício de busca sem nenhuma religiosidade, avisa Cláudia. Que a obra é intimista e fala de recolhimento, não tem a menor dúvida, apesar das dimensões das telas, e das etapas que se desdobram em fotografia, dança, música, filme.
Mesmo deixando para cada visitante interpretar a seu modo, a artista dá seus pareceres. O vermelho para ela é paixão, o amarelo é desejo, o branco é toque, o azul é abismo e o preto rompimento. Ao pensar as palavras lhe vêem à mente estas cores.
O preto, a cor derradeira, tem o dom do sono, da noite, do esquecimento. Seria a paz da morte, como um descanso temporário para dar início ao surgimento de tudo, da sangria da paixão, ao ouro alucinado do desejo, à brancura tênue dos toques, ao azul distante, visto do fundo dos abismos, antes do adormecimento para um novo renascer. A morte é a ante-sala da vida.
q Trabalho de Parto - curta-metragem concebido por Cláudia Guimarães, direção dos Irmãos Schumann, com o bailarino Sérgio Oliveira. Música de Roberto Burguel. Hoje, no Cine Plaza (Praça Osório), em Curitiba, às 10h30.


