São Paulo, 08 (AE) - Em 12 dias de exibição no mercado americano, Toy Story 2, que estreou nos Estados Unidos no dia de Ação de Graças, faturou mais do que "O Rei Leão" no mesmo período. Uma vitória apertada (US$ 101 milhões contra US$ 100 milhões, apenas US$ 1 milhão de diferença), mas altamente simbólica. Nenhuma outra animação da Disney, nos últimos anos, teve acolhida mais triunfal do que a história de Simba. Por conta disso, John Lasseter, um dos criadores e principal animador da empresa Pixar, já está sendo chamado de novo Walt Disney.
Numa sala do Hotel Meliá, em São Paulo, Lasseter considera a comparação lisonjeira. Afinal, Disney foi uma referência para ele desde que, garoto, divertia-se assistindo aos filmes animados do pai de Mickey. Mas ele faz questão de trilhar um caminho próprio. Lasseter passou a terça-feira dando entrevistas em São Paulo. Numa sala, ele se encontrava com jornalistas. Na outra, o anfitrião era o compositor Randy Newman. Na véspera, estiveram no Rio. Vieram de Buenos Aires. O tour por capitais sul-americanas faz parte da campanha para promover Toy Story 2", que estréia no dia 17 no Brasil. Entra em 348 salas, sinal de que a distribuidora Buena Vista e os exibidores nacionais acreditam num estouro de bilheteria.
Quem viu "Toy Story", o primeiro, por certo se lembra dos personagens. Dois brinquedos: Woody e Buzz Lightyear, liderando uma multidão de outros bonecos. Na esteira do grande sucesso de bilheteria de 1995, surge agora a sequência. Lasseter explica o conceito: "O primeiro filme passa-se quase todo em interiores, dentro da casa: o atual é um road movie, os personagens ganham a rua e o mundo." Uma mudança considerável, que amplia os limites da ação em filmes animados. Há momentos que parecem live action (a travessia da rua, o aeroporto). Para isso contribuiu, com certeza, a aventura de "Vida de Inseto", que a Pixar fez depois de "Toy Story". A experiência com cenas de natureza, muitos exteriores, liberou a Pixar para para fazer Toy Story 2".
Nada deixa o diretor mais feliz do que a observação feita pelo repórter: "A história é tão legal que faz a gente esquecer a técnica." Lasseter diz que a Pixar é isso - tecnologia de ponta na área da animação, mas totalmente subordinada à história. "Não cultivamos a técnica por si; ela tem de estar a serviço de um objetivo, que é a história."
Sequestro - Na história, o caubói é sequestrado por um colecionador e Buzz sai atrás do amigo numa louca corrida. Com ele, segue a turma toda de brinquedos. Lasseter explica como teve a idéia: "Sou pai de cinco filhos, quatro são crianças entre 10 e 2 anos." Adoram brinquedos e o problema é que ele, Lasseter, é um colecionador de bonecos. Tem lá os dele muito bem guardados no escritório. Volta e meia as crianças invadiam seu território. Lasseter reclamava. Um dia sua mulher lhe disse: "Deixe-os brincar, brinquedos são feitos para as crianças." Lasseter ficou com aquilo na cabeça. E começou a tecer o fio da história, explorando o medo de um brinquedo de perder-se do seu dono, de ser esquecido, de perder a utilidade como objeto de folguedos.
Por mais emocionante que seja essa história, para adultos e crianças - Lasseter não faz distinção, diz que fez o filme pensando no público como um todo, tentando atingir da criança ao idoso -, a técnica continua prodigiosa. Nada mais normal para o diretor. Nos quatro anos decorridos desde "Toy Story", a tecnologia não cessou de evoluir. Lasseter não sabe até onde a animação poderá ir com computadores cada vez mais avançados, mas acha que nem todo o desenvolvimento tecnológico vai acabar com a animação tradicional. Para ele, animação tem a ver com imaginação. "É criatividade, ousadia." O computador só é válido como novo meio por permitir ampliar os limites da imaginação. Volta ao conceito de que a história é o mais importante.
Randy Newman é outro que destaca o valor da história contada. O Newman do nome o inscreve como integrante de uma dinastia musical do cinema americano. Os tios Alfred e Lionel foram músicos notáveis. Newman não hesita em apontar Alfred, por sua atividade na empresa Fox, como um dos maiores, senão o maior compositor de todos os tempos. E polemiza: não considera a parceria de Bernard Herrmann tudo aquilo que dizem. Admira as partituras de "Psicose e "Taxi Driver (de Scorsese), mas em geral acha que Herrmann é supervalorizado.
Considera as parcerias positivas no cinema. Cita a associação de Nino Rota com Fellini, a de John Williams com George Lucas, a dele com John Lasseter. "Trabalhar no segundo Toy Story foi mais fácil." Acha que, do primeiro para o segundo filme, Lasseter evoluiu nas escolhas, tem mais ouvido, sabe fazer-se entender. Diversas vezes indicado para o Oscar, ele acha que poderá ser de novo, na categoria de canção (a melhor é a da boneca que foi esquecida pela dona). Mas não é do tipo que valoriza o prêmio da academia. "Não ligo", garante. Adora música brasileira. Não apenas bossa nova, Caetano Veloso e Gilberto Gil merecem seus elogios. Acima de todos coloca Jobim e Villa-Lobos. "O Brasil é um país abençoado por sua diversidade e colorido musical", resume.

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