TORTURANDO TÍMPANOS DELICADOS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de junho de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Discos do Sonic Youth nunca vão para a lata de lixo, por mais sofríveis que sejam. Somos generosos com a banda novaiorquina, poupando-a das faxinas de finais de ano quando separamos os CDs e vinis que ficam na coleção daqueles que são descartados para os sebos.
Mas qual foi o último disco imperdível do Sonic, aquele que mereceria figurar numa lista dos melhores da temporada? A pergunta não vale, obviamente, para os fãs do grupo para os quais qualquer murmúrio de Kim Gordon ou ruído produzido por um pisão distraído de Thurston Moore no pedal da guitarra é motivo de reverência.
Uns apontarão A Thousand Leaves (98), alguns elegerão Dirty (92) e ainda outros indicarão Goo (90). Mas não será, com certeza, NYC Ghots & Flowers(importado). O álbum acaba de sair lá fora com produção de Jim ORourke, o mesmo que assinou o último trabalho do Superchunk. Contém oito faixas recheadas de vocais sufocantes, ruídos, timbres incomuns e crescendos explosivos de guitarras marcas registradas que tanto torturaram tímpanos delicados ao longo de quase duas décadas de trajetória.
A referência à geração beat se faz presente outra vez. Se em A Thousand Leaves homenagearam o poeta Allen Ginsberg em uma faixa, desta vez prestam as honras ao romancista Willian Burroughs estampando um desenho de sua autoria na capa do CD. O repertório é de difícil digestão. Em Renegade Princess, paira a sombra do Velvet Underground. Nevermind (what was it anyway) traz vestígios de jazz. Lightnin sugere efeitos de raspagem das cordas das guitarras.
A ênfase é na desconstrução da melodia. Sonic evita apelos pop. Parece ambicionar a complexidade da música de concerto contemporânea. Não por acaso, lançou no final do ano passado o CD duplo Goodbye 20th Century no qual executa peças de compositores da vanguarda erudita como John Cage, Steve Reich e Pauline Oliveros.
A banda exige paciência para ser ouvida. Mais do que isso, exige pose, muita pose. Porque produz o tipo de música que muita gente apenas finge gostar.


