Tortoise faz shows no Brasil, ciceroneado por Tom Zé
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quarta-feira, 01 de dezembro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 01(AE) - Vem aí o Tortoise, um dos "corpos estranhos" da nova música independente americana. Grupo experimental formado em Chicago em 1990, o Tortoise foi o anfitrião da recente excursão de Tom Zé à América, tocando com o músico brasileiro em seis cidades, de Cambridge a Los Angeles.
Agora é chegada a hora da contrapartida. Tom Zé é que acompanhará o pessoal do Tortoise em sua turnê pelo Brasil, que começa em Belo Horizonte no dia 11 e chega a São Paulo nos dias 15 e 16, no Sesc Pompéia. Eles são esquisitos que se atraem. "Gosto do jeito que o Tom trata suas idéias, os diferentes elementos e tipos de música que usa e também dos conceitos e idéias", disse na terça, por telefone, o baixista Doug McCombs, um dos fundadores do grupo americano. "O que ele faz é muito semelhante ao que o Tortoise busca", afirmou McCombs.
Além de McCombs, o Tortoise é formado pelo guitarrista John McEntire, o tecladista Jeff Parker, o multiinstrumentista Dan Bitney e Johny "Machine" Herndon, vibrafonista, xilofonista e programador de bateria e baterista. A promotora do show é a Motor Music, de Belo Horizonte.
Segundo McCombs, o grande interesse do Tortoise pela música do baiano Tom Zé só surgiu há alguns anos, quando seus discos passaram a estar disponíveis nas lojas americanas por meio do selo Luaka Bop, de David Byrne. Até então, havia um grande interesse pela música brasileira, particularmente a Tropicália, mas os músicos do grupo conheciam muito pouco.
A música latina é um forte componente da mistura do Tortoise - mas também a eletrônica, os grupos de avant jazz e a vanguarda musical de John Cage e Stockhausen. "Acho que uma grande parte de nosso interesse pelos sons latinos é a questão do ritmo", diz McCombs. "A outra parte é o jeito com que se estruturam as melodias, um jeito diferente da música popular americana - e eu tenho grande interesse também pela conexão entre o jazz americano dos anos 60 e a música latina", explica.
Tortoise é o nome em inglês para as tartarugas terrestres. No casco do grupo de Chicago cabe de tudo, mas a ênfase é diferente da do rock. Seu estilo - o Tortoise é um grupo instrumental, basicamente - enfatiza percussão e baixo sobre guitarra e vocais.
A própria opção pessoal de McCombs como baixista já demonstra que não é um grupo comum. Ele prefere a "vanguarda clássica" de Charles Mingus ao virtuosismo popular de Jaco Pastorius - dois grandes baixistas da música americana. Em casa, conta, gosta de ouvir John Coltrane, Ornette Coleman, Duke Ellington e muito Mingus, seu preferido.
O baixista tem idéias muito firmes sobre o que quer e o que não quer da música. "Algumas coisas de Jaco Pastorius eu gosto, outras não", afirma McCombs. "Por sua música, dá para ver que era um cara inteligente, que tinha boas idéias, mas nem sempre conseguia realizá-las bem", pondera. Também admira a música eletrônica, mas não coisas como Moby e Prodigy - prefere os clássicos, os velhos discos, como os dos grupos Can e Kraftwerk e John Cage e Stockhausen.
O estilo experimental e inusitado do Tortoise tem seduzido muita gente do pop, ultimamente. O guitarrista McEntire produziu e fez engenharia de som para álbuns de grupos como Stereolab, Trans Am, Brokebak, The For Carnation e outros. E trabalhou na trilha do filme "Reach the Rock", um filme de John Hughes. A trilha foi lançada pelo selo do filho do diretor Hughes, Hefty Records.
McCombs (ex-integrante da banda Eleventh Dream Day e do Slint), que toca um baixo de seis cordas, acaba de lançar seu disco-solo com convidados como Isotope and Stereolab, com produção de John McEntire. Eles - assim como outros grupos limítrofes, como Medeski, Martin & Wood e o finado Morphine - têm mudado a música popular americana, incorporando influências externas e as misturando ao mainstream.
Ainda assim, não são unanimidade de público - muito pelo contrário. No mês passado, a banda teve um show cancelado em um festival de Londres por não ter conseguido vender ingressos satisfatoriamente. "Obviamente, nós ficamos felizes se as pessoas vêm aos teatros", diz McCombs. "Mas o fato é que nós preferimos trabalhar com pequenos selos e com um esquema menor, porque isso nos permite ter maior controle artístico sobre nosso trabalho", assinala.
A diferença, diz McCombs, é que, quando as pessoas vão aos seus shows, têm a exata noção do que querem. "Não estão na platéia por causa de uma estratégia de mercado, mas por estarem realmente tocados pela música", afirma. "O cancelamento do show na Inglaterra ocorreu porque aquilo era um festival de massas e nosso tipo de música não parece adequado para shows de multidões", pondera.
É por conta desses princípios que o Tortoise não chega carregado de hits para a platéia brasileira. É preciso aprender a ouvir coisas como "Djed" (no qual usam um DJ para alcançar o resultado que procuram), "Learning Curve, Galapagos, Reservoir" e "The Suspension Bridge at Iguazu Falls". Essa última faixa tem uma história curiosa. Eles não conhecem o Brasil e muito menos as quedas de Foz do Iguaçu ("Iguazu Falls"). Trata-se de uma letra que envolve a biografia de um famoso arquiteto (fictício), cujo sonho é construir uma ponte sobre as quedas do Iguaçu. É um sonho incompleto, mas McCombs nutre o desejo de ir até as quedas dágua para conhecê-las.
Conciliação - O Tortoise gravou pela primeira vez em 1994, com um disco que levava o nome do grupo. Misturava um pouco do rock progressivo ao estilo do Yes, avant jazz, indie rock, trip-hop e dubs à jamaicana. Em 1995, o membro-fundador Bundy Brown deixou o grupo e foi substituído por Dave Pajo. Em 1996, gravaram o segundo disco, "Millions now Living Will never Die" - o nome veio de um tratado das Testemunhas de Jeová. Buscavam aqui a conciliação do inconciliável: a dance music e o rock independente.
Além dos músicos, eles têm o reforço técnico de um supertécnico de som, Casey rice, cujo currículo inclui trabalhos com Liz Pahir, Shrimp Boat, 5ive Style e Ben Lee. Quando acompanharam Tom Zé, eles não fizeram uso de seu repertório pessoal - eram apenas coadjuvantes, uma banda de apoio. "Tivemos apenas cinco dias para ensaiar", disse John McEntire. Além daquela viagem com Tom Zé, o grupo teve outros "contatos imediatos" com o compositor baiano. McEntire, que chama Tom Zé de "meu avô", apareceu remixando música do brasileiro no disco de remixes "Postmodern Platos. Outra colaboração recente da banda foi com o grupo punk holandês The Ex. Apesar da grande proximidade com a música brasileira, McCombs diz que não sabe exatamente o que esperar do País. "Só quero ver e conhecer o que puder, no tempo que teremos", ele acrescenta.


