O sucesso de uma novela é resultado de um conjunto de fatores. Uma história bem amarrada e instigante e a condução da direção no set, sem dúvida, são importantes. Mas a escolha dos atores para viver cada um dos personagens também é fundamental. Afinal, eles personificam os papéis escritos no texto e que, até então, estavam apenas na imaginação de seu criador. Por isso, é compreensível que muitos autores façam questão de acompanhar de perto e se envolver ao máximo com a escalação do elenco de suas novelas.
Walcyr Carrasco, por exemplo, sonhava com Marieta Severo no elenco de uma de suas tramas. Mas ela sempre esteve envolvida com "A Grande Família". Quando o seriado acabou, o autor deixou claro o interesse em tê-la em "Verdades Secretas" logo nas primeiras reuniões de elenco. Apesar de saber que a atriz poderia recusar o convite, apostou na força da personagem que tinha a oferecer. "Sei que Marieta é levada pela qualidade dos personagens e que, depois de tanto tempo fazendo o mesmo papel, iria gostar de subverter a ordem, surgir totalmente diferente. Aí, apresentei a novela e a Fanny para ela. O 'sim' foi imediato", conta Walcyr.
O processo de escalação costuma ser em conjunto com produtores de elenco e diretores. Mas, volta e meia, os autores precisam usar seu poder de persuasão ou engatar uma boa conversa para contar com a participação de um nome muito requisitado do casting da emissora. "Teve uma atriz, cujo nome não vou revelar, com quem tivemos de jantar e tomar cafezinhos inúmeras vezes para que ela aceitasse o papel. Ela nos fez engordar muitos quilos", diverte-se Duca Rachid, autora de novelas como "Joia Rara", "Cordel Encantado" e "Cama de Gato" ao lado de Thelma Guedes.
A autora, aliás, sabe que não pode sobrepor seu gosto pessoal por determinado ator ou atriz à decisão do diretor, que é quem trabalha diariamente com o elenco nos estúdios. "Só sugiro a escalação se realmente tiver um papel para o ator. Do contrário, vai ser ruim para a novela e uma insatisfação para o ator, para o autor, para o diretor, para todo mundo!", explica Duca.
Admirador do trabalho de Lília Cabral, Aguinaldo Silva já havia percebido a força da atriz em novelas suas, como "Tieta", de 1989, e "Pedra Sobre Pedra", de 1992, e em obras de outros autores. Mas sempre na pele de antagonistas ou em papéis coadjuvantes. A oportunidade de oferecer a primeira personagem principal da carreira de Lília rendeu a Aguinaldo mais um trabalho com a atriz, "Fina Estampa". "Eu queria vê-la como protagonista e expressei esse meu desejo a ela, que prontamente aceitou", recorda o autor.

Querer e poder

Nem sempre basta um autor querer para contar com determinado nome no elenco de sua novela. Vincent Villari tinha vontade que Giulia Gam interpretasse Bruna no remake de "Ti-Ti-Ti". Mas os atores que estavam cotados para viver o filho da personagem tinham mais de 30 anos. "Ou seja: Giulia iria dançar, porque era jovem demais para ser mãe de um trintão", explica o autor. Até que o diretor Jorge Fernando sugeriu trazer Caio Castro, recém-saído de "Malhação" e na faixa dos 20 anos, para fazer o papel. Daquela forma, Giulia poderia passar como mãe de seu personagem facilmente. "Por sorte, quando vimos o trabalho dele, constatamos que era realmente muito bom e assim Caio entrou na novela, subindo um degrau importante na sua carreira. Mas o mais importante para mim, naquele momento, foi ter Giulia no papel que eu sonhava", assume Vincent, que já está envolvido com a escalação do elenco de "Sagrada Família", novela que assina ao lado de Maria Adelaide Amaral para a faixa das 21 horas.
A reserva antecipada de elenco e a disputa entre diferentes equipes por um mesmo ator também influenciam no resultado final da escalação de elenco. Lauro César Muniz se viu em uma situação parecida na época de "O Casarão", de 1976. Como a história era contada em três fases, era preciso atores de idades diferentes para o mesmo personagem. A ideia inicial de Lauro era escalar Paulo Gracindo para o papel principal e Gracindo Júnior, filho do ator, para interpretar o mesmo papel na fase mais jovem. "Ocorre que o Dias Gomes já havia escalado Paulo para o papel de um prefeito em 'Saramandaia'. E as novelas estariam no ar simultaneamente, um às 20 horas e outra às 22 horas, na Globo", recorda Lauro. Nesse caso, a decisão final coube à emissora, que avaliou que a trama das 20 horas tinha um peso maior na grade de programação. "'O Casarão' venceu a disputa pelo Paulo Gracindo", orgulha-se o autor.

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