O naturalismo das novelas sempre conviveu com o sobrenatural. Desde a pioneira ''O Terceiro Pecado'', de 1969, autores como Ivani Ribeiro, Janete Clair e Dias Gomes recorrem a fenômenos que passam ao largo das explicações científicas.
Com o entretenimento na ordem do dia, criadores variam estilos e inspirações, que vão das lendas folclóricas ao futurismo da ficção-científica. Além disso, o sobrenatural também está fortemente presente em folhetins com temas religiosos, seja na polêmica discussão sobre a vida após a morte, ou na adaptação de histórias bíblicas. ''As pessoas querem ligar a tevê e sonhar. Sempre que posso, coloco personagens com algum dom obscuro em minhas novelas'', diverte-se Aguinaldo Silva, que desde o início da carreira bebe na fonte do realismo fantástico original de Dias Gomes, autor de clássicos do gênero, como ''O Bem-Amado'', de 1973, e ''Saramandaia'', de 1976.
Aguinaldo já brincou com o sobrenatural em várias de suas novelas. Inclusive, na atual ''Fina Estampa'', o autor vem aumentando cada vez mais a dose de situações inexplicáveis, com as visões sobre o futuro de Luana, de Joana Lerner, e o súbito aparecimento de Enzo, de Júlio Rocha, que supostamente, caiu do céu.
Com intensidades diferentes e resultados oscilantes, outras produções recentes apostam em uma injeção de histórias do além em seus roteiros. A abordagem de forças ocultas está fortemente presente na recém-terminada ''O Astro'', na nova das sete, e ''Aquele Beijo'' - onde Bruno Garcia faz um vidente. E é a base da atual temporada de ''Malhação'', cheia de referências a séries americanas, que misturam ficção científica e histórias em quadrinhos. ''Queria falar da conectividade das pessoas com elas mesmas, com seus sonhos e intuições. O que puxa a trama é o número 1046'', explica a autora Ingrid Zavarezzi, referindo-se ao número que aparece nos sonhos de Alexia, de Bia Arantes.
Embora o tema tenha derrubado a audiência da novelinha da Globo, que patina nos 16 pontos, a inspiração em gibis e ''sci-fi'' já rendeu à Record bons índices no ibope. No entanto, com a saga mutante de ''Caminhos do Coração'' - criada por Tiago Santiago, em 2008 - as referências foram além. No mesmo caldeirão, Tiago misturou vampiros, super-heróis, espiritismo, mitologia grega, entre outras. ''A grande viagem da novela foi não se limitar. Essa liberdade foi fundamental para o sucesso dos mutantes'', conta o autor.
Mais recentemente, outra trama que aglutinou inúmeras referências foi o ''remake'' de ''O Astro''. Baseado na novela original de Janete Clair, exibida em 1978, a adaptação abusou de assombrações, alucinações e ilusionismo. ''O Herculano poderia ter ido por vários caminhos, desde a esquizofrenia até o espiritismo'', analisa Rodrigo Lombardi, intérprete do anti-herói, que com seus ''poderes'', escapa inúmeras vezes da morte e chega ao comando do grupo Hayalla.
Para Thiago Fragoso, que deu vida ao frágil Márcio, a angústia espiritual dos personagens da novela foi o principal chamariz de público. ''A levada espírita da novela estava diretamente ligada ao jogo de poder entre os personagens. As cenas do Salomão tentando de se comunicar com o Márcio eram bem assustadoras'', conta Thiago, referindo-se aos ataques sofridos por seu personagem ao se comunicar com o falecido pai, Salomão Hayalla, de Daniel Filho.
A interação entre pessoas em planos espirituais diferentes foi o mote de muitas novelas de Ivani Ribeiro, como ''O Sexo dos Anjos'' e ''A Viagem''. Atualmente, a herdeira direta de tramas com essa temática é a mineira Elizabeth Jhin, autora de ''Escrito nas Estrelas'', novela que abordou a fertilização de uma mulher a partir do sêmen de um homem já morto. ''Quis falar como o espírito desse homem lida com esse filho que vai nascer. Para minha sorte, o público embarcou na história'', ressalta a autora, que volta ao ar no primeiro semestre de 2012, com outra trama de tons espirituais, que tem título provisório de ''Marajó''.

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