São Paulo, 15 (AE) - O acordeonista Sivuca (prefere ser chamado de sanfoneiro: sanfona e acordeão são o mesmo instrumento, mas sanfona é feminino) tem uma teoria curiosa: diz que foi o (tristemente) famoso professor do instrumento Mário Mascarenhas, que pontificou nos anos 60, o responsável pela vulgarização do instrumento. Todo mundo tocava acordeão pelo método Mascarenhas e tocava mal. Era um ensino redutor. O instrumento virou coisa ruim, cafona, desprezível.
Não é nada disso, claro, como o provaram e continuam provando de forma tão eloquente Gonzaga, Sivuca, Dominguinhos, Chiquinho do Acordeão e, mais recentemente, Toninho Ferragutti (sem falar em pianistas vindos do acordeão, como Cristóvão Bastos, que volta e meia usa muito bem o instrumento).
Toninho Ferragutti tem longa carreira como acompanhante dos melhores cantores (e participação em grupos instrumentais), um disco em duo com o saxofonista Roberto Sion (Oferenda, lançado no ano passado) e chega agora ao primeiro, merecidíssimo
disco-solo, Sanfonemas (lançamento Pau Brasil, www.paubrasil.com).
Embora Ferragutti seja antes de mais nada um músico urbano, e use seu instrumento, caracteristicamente, com a contenção quase minimalista que seu emprego em música urbana induz, em Sanfonemas ele vai buscar os sotaques diversos, do forró à música do Sul, do choro à gafieira. Os diversos fonemas de que o acordeão é capaz - no dicionário, fonema: "Conjunto de articulações dos órgãos fonadores cujo efeito acústico representa, numa enunciação, o mínimo segmento distintivo."
Disco de idéias, além de ser de música, "Sanfonemas serve para mostrar quanto é rico o acordeão, quanto é vário o seu uso. Com mérito adicional: das 14 faixas, em estilos os mais diversos, 12 são assinadas pelo músico. Toninho abre exceção para a lindíssima canção argentina "Alfonsina y el Mar", de Ariel Ramirez e Felix Cesar Luna, na qual faz um híbrido de aproximação jazzística com um denso clima piazzolliano. A outra exceção é o tango (mais uma vez piazzolliano) "Merceditas, de Ramón Sixtorios, em que surgem três dos participantes especiais do disco: o violonista Zino Brito, o contrabaixista Rodolfo Stroeter (também produtor do disco) e a cantora Marlui Miranda. Que é uma grande intérprete de tangos, vocês sabiam?
"E o Vento Levou", que abre o CD, é um forrozão, com zabumba, pandeiro, triângulo (percussão a cargo de Guello); "Chapéu de Palha, uma gafieira em que o acordeão dialoga com a clarineta de Naylor Proveta: para sair dançando. Sanfonema", faixa-título (mas no singular), é uma canção triste que combina o instrumento do titular do disco com a flauta de outro Toninho, Carrasqueira, e os teclados sutis de Lelo Nazário. Em "Dominguinhos no Parque" a participação é do homenageado, um arrasta-pé danado de bom.
Como sempre toca com outros, Toninho Ferragutti tem poucas chances de mostrar as composições próprias. Pois é ótimo compositor, como provam as faixas já citadas e reforça a valsa "Victória, de construção complexa, harmonia assimétrica assinalada pelo sete cordas de Edmilson Capelupi. O sax soprano é de Proveta. São algumas das faixas. Toninho Ferragutti faz show para lançar o disco no sábado, às 21 horas, no O Velhão (Estrada de Santa Inês, 3.000, fone 485-1964). Os ingressos custam R$ 15,00.

mockup