São Paulo, 09 (AE) - A ausência de esperança no teatro de Edward Albee não divide o mundo entre pessimistas e otimistas. Como Gide, ele deve achar o pessimista um idiota triste - e o otimista, apenas um idiota alegre. Portanto, não foi só com fúria passional que Albee investiu contra o núcleo familiar em "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (peça escrita entre 1961 e 1962) e, posteriormente, em "Um Equilíbrio Delicado", cuja primeira apresentação teve lugar no Teatro Martin Beck, de Nova York, em 1966, com Jessica Tandy no papel principal. Albee usa principalmente a razão para demonstrar que o inferno pode ser uma sala confortável com um sofá, um casal insatisfeito, uma alcoólatra, outro casal em pânico e uma filha saindo do quarto casamento. É essa a peça que estréia amanhã (10), no Teatro Alfa.
"Um Equilíbrio Delicado" começa onde termina Virginia Woolf, ou seja, com a linguagem já reduzida a cacos e a sincera tentativa de reanimar o espírito da família, mesmo que ele seja sustentado por uma única pessoa -- no caso, a paciente Agnes, viga mestra de um edifício em ruínas. Foi justamente Agnes que Tônia Carrero escolheu para comemorar meio século sobre o palco. Ela e Walmor Chagas lideram um elenco de veteranos com Ittala Nandi, Luís de Lima, Camila Amado e Clarice Niskier na montagem brasileira dirigida pelo carioca Eduardo Wotzik, que estreou em janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio.
A temporada paulistana de "Um Equilíbrio Delicado" é curta. Vai até o dia 4, na sala menor do Alfa (apenas 200 lugares). Albee tinha 38 anos quando a peça estreou nos Estados Unidos. Esperou mais 33 anos para que ela fosse montada pela primeira vez no Brasil . Há 25 anos, seu tradutor, o ator Luís de Lima, tentou montá-la com Glauce Rocha no papel de Agnes. Outras tentativas foram feitas, entre elas a do próprio Walmor Chagas, que queria encenar Albee com Marília Pêra. "Já estava virando um projeto maldito no teatro brasileiro", conta o ator.
Não virou um projeto maldito, mas cada um dos participantes da produção tem sua visão de Albee. Tradutor e diretor a consideram uma peça realista com vocação becketiana, isto é, inclinada para o absurdo. O casal central, Tônia e Walmor, a inserem na tradição do melhor teatro realista americano. Parece compreensível que um diretor como Eduardo Wotzik, aos 39 anos, não tenha acumulado os mesmos traumas da experiência existencial de seus atores mais velhos, Tônia e Walmor, ambos na faixa dos 70, para defender com paixão o realismo de Albee, mas cedeu. "Afinal, o que era absurdo, hoje é muito real", justifica.
Mesmo assim, o conflito entre gerações foi transferido do texto para o palco. Tônia diz que Wotzik foi feliz ao seguir seu instinto e deixá-los sozinhos no palco, "soltos" num cenário despojado. Walmor, que se considera um zepelin, "indirigível", define Wotzik como "hábil", mas assume in totum o discurso de Tobias, seu personagem. Faz isso com todo "horror e exuberância" que exige a sua ária final na peça.
Tobias, um homem controlado, explode em histeria contra o casal de amigos que invade sua casa e ameaça lá ficar por medo de voltar ao próprio lar, um medo irracional do desconhecido. Walmor, controlando suas emoções, imita seu personagem. Admite que ficou velho e, como todo velho ator, virou "um canastrão". E conclui: "Os velhos não têm mais a curiosidade da emoção porque sabem que a conquista é impossível, enquanto o jovem tem o ímpeto da emoção, um músculo que se torna flácido, um elástico frouxo na velhice."
Tônia Carrero, confirmando a identificação com Agnes, também acha que a visão total é a mais restrita e que o equilíbrio, afinal de contas, deve ser mantido. Alguém tem de ser o sustentáculo de uma família em crise permanente (dentro e fora do palco). Como Agnes, ela casou e descasou. Viu sua individualidade virar excentricidade, assumindo o que Walmor define como a "canastrice" inerente aos velhos atores. "Agnes é a única que tem conhecimento da verdade, qual seja, a de que nos tornamos alegóricos quando ficamos velhos", diz. "Esse texto não tem nada a ver com o absurdo, a gente sabe exatamente do que Albee está falando".
Por exemplo, quando Harry e Edna, o casal de amigos, instala-se na casa de Agnes e Tobias, Albee não explica a razão dessa "invasão"- daí a comparação com Beckett -, mas o medo do casal hoje atende pelo nome "síndrome de pânico". Tônia explica a antevisão do autor: "Albee é um gênio, como Proust, ou seja, um arauto que anunciou as coisas que estavam por vir, sendo a síndrome uma delas." A desagregação familiar americana foi outra profecia de Albee, segundo a atriz. "Era previsível que uma sociedade que cultua a violência acabasse com crianças matando coleguinhas na escola."
A atriz diz que estava em dívida com Albee desde sua frustrada experiência na peça "Quem Tem Medo de Virginia Woolf", dirigida por Antunes Filho, em 1978. "Ele estava tão envolvido com a direção de Macunaíma que a peça saiu toda errada", desabafa. Não foi o caso da histórica montagem da qual participou Walmor Chagas e sua mulher Cacilda Becker anos antes. Na época, ele tinha 40 anos e só não montou "Um Equilíbrio Delicado" porque a peça exigia um sexagenário no papel de Tobias.
Hoje, todos têm a idade e a maturidade exigida pela peça de Edward Albee. Ittala Nandi, que há 30 anos interpretou os mais ousados papéis no Teatro Oficina, faz Claire, sempre um gole à frente dos outros personagens, mas a única capaz de enfrentar a hipocrisia do mundo em que vive sua irmã Agnes. São dela as frases mais cruéis de Albee. A mais branda: "Você não tem utilidade nenhuma para mim." Barra pesadíssima. Um Equilíbrio Delicado. Drama. De Edward Albee. Direção de Eduardo Wotzik. Com Tônia Carrero, Walmor Chagas, Luís de Lima, entre outros. Duração de 1h50. Quinta e sexta-feira, às 21 horas; sábado, às 18 e 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 40,00 (hoje), R$ 45,00 (amanhã e domingo) e R$ 50,00 (sábado). Teatro Alfa Real - Sala B. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 5693-4000.

mockup