São Paulo, 30 (AE) - A procura por novos meios de expressão, curiosamente, fez Tomie Ohtake reencontrar a espacialidade de um grande mestre nanga japonês nascido no século 18, Aoki Mokubei. Tomie, surpresa, diz que nem mesmo pensou na gravura japonesa quando começou a recortar as chapas de impressão para criar as formas de sua nova série de gravuras, exposta, a partir de amanhã (01), na Galeria Nara Roesler, em São Paulo. Mokubei trabalhava dentro de uma tradição. Tomie quis romper com ela. Como Matisse, passou a recortar figuras. Só que, ao contrário do pintor francês, não cortou o papel, mas a chapa de cobre.
Esse gesto radical, que anula o fundo do papel branco, cria uma nova espacialidade que Mokubei, por razões óbvias, estava longe de entender no século 18. Apesar disso, a forma da montanha de sua gravura "Aniversário" é espantosamente semelhante a uma das 13 gravuras expostas por Tomie, remetendo à associação inconsciente que Richard Dreyfuss faz com a montanha que atraía discos voadores no filme "Contatos Imediatos do Terceiro Grau".
O fato é que, aos 86 anos, Tomie diz conservar pouco contato com sua cultura de origem. As gravuras recortadas e montadas em vidro têm mais a ver com o projeto moderno ocidental
embora conservem algo do movimento circular do nanga, escola japonesa de gravura em que o tema da obra é sempre a tradução da energia vital dos elementos naturais. Em Tomie não há nenhuma árvore, mas há uma gravura em forma de folha e outras formas reconhecíveis. Essas gravuras, diz a artista, aspiram ao status de objetos.
Ela afasta a chapa de vidro de uma obra com a forma triangular vermelha vazada, para mostrar que a sombra projetada confere à gravura uma nova situação espacial. Em outra, que parece uma garrafa morandiana, é mais clara a síntese desse encontro entre o difuso mundo cromático de Nagasawa Rosetsu e o recorte matissiano. Prevalece a visão lírica do primeiro, a despeito de Tomie insistir que está tão distante do Japão quanto alguém pode estar depois de meio século de Brasil.
Ela lembra que fez sua primeira gravura há 30 anos. Desde então, já produziu duas centenas delas, sempre procurando ampliar suas possibilidades de expressão. Se essas gravuras perseguem a forma, lembra Tomie, sua pintura a aboliu em nome da pesquisa cromática, assim como sua escultura quer ser desenho no ar - como aquelas linhas brancas que devoravam o espaço na Bienal de 97. Ela diz que convive bem com esses dois lados, o construtivo e o da expressão gestual. "Na série de gravuras Yu-Gen, com poemas de Haroldo de Campos, acho que conseguimos uma boa síntese entre arte e literatura", lembra.
Nessa gravuras, o conceito de vazio parecia dominar como nas arcaicas paisagens japonesas, em que o ponto focal era o da convergência de elementos etéreos como as nuvens. Nesta nova série de gravuras, esse diálogo se dá com o vazio interno das formas vazadas como o triângulo ou com a subtração do papel, o espaço externo da chapa de vidro. "Essa associação é inconsciente, porque não penso na gravura japonesa", diz. "Quero inventar", conclui.
Interessados nesse processo de invenção podem participar de um workshop programado para os dias 11 e 12, na Galeria Nara Roesler, com o técnico Cláudio Vasquez, que ajudou Tomie a criar essas gravuras. As inscrições são gratuitas, mas o número de vagas é limitado a 80 pessoas. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone 3063-2344. SERVIÇO: Tomie Ohtake - de segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 11 às 15 horas. Galeria Nara Roesler. Avenida Europa
655, tel. 3063-2344. Até 30/12. Abertura amanhã (01) às 20 horas.

mockup