Tombada pelo Patrimônio Histórico, Alcântara é atração imperdível
São Luís - Alcântara ficou conhecida por abrigar a base da Aeronáutica e pelo acidente ocorrido no local em 2003, mas a realidade por lá é bem diferente da tecnologia das instalações militares. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1948, a cidade parou no tempo e ainda guarda o charme e as ruínas da época em que era a ''menina dos olhos'' do Nordeste.
Durante o trajeto de uma hora de catamarã entre São Luís e Alcântara, é possível fazer uma parada em um manguezal e conhecer os guarás, pássaros vermelhos que habitam toda a área de mangue do Maranhão - a segunda maior do Brasil. As aves nascem com as penas brancas e ficam vermelhas com o tempo, por causa dos caranguejos de que se alimentam.
Um dos maiores atrativos turísticos é observar a revoada dos guarás. Impossível andar por ali - com cuidado, para não se prender na lama - e não lembrar dos clipes de Chico Science e Nação Zumbi. Há quem aproveite o momento pegajoso para se enlamear também. Dizem que os estrangeiros adoram. Devidamente limpos, é hora de partir para Alcântara, cidade com 70 quilômetros de praias desertas e uma grade riqueza histórica.
Como o percurso é cheio de subidas, descidas e ruas de pedra, o melhor meio de transporte é a jardineira, espécie de caminhonete com bancos de ônibus na carroceria. A primeira parada é na Igreja dos Desterrados, construída pelos portugueses trazidos ao Brasil como degredados. O prédio tem suas ''costas'' voltadas para o mar, como uma forma de renegar Portugal.
Mas a imersão no passado só começa, de fato, com a visão das ruínas da Igreja Matriz de São Matias, na praça central da cidade. Poucas paredes formam a edificação mais antiga de Alcântara, anterior a 1648. A igreja já estava em ruínas na virada do século 19 para o 20, e para evitar um possível desabamento, um dos moradores demoliu parte da construção, que ainda guarda certa imponência.
Decadência - Ainda no século 17, o povoado tornou-se importante ponto de ligação por vias fluviais entre São Luís e Belém e, por isso, foi elevado à condição de vila de Santo Antônio de Alcântara (palavra de origem árabe que significa ''a ponte'').
Em meados do século 19, com a aristocracia chegando à região, as fazendas, plantações de algodão e salinas da cidade alcançaram seu auge. Pouco tempo depois, com a abolição da escravatura no Brasil (1888) e a recuperação do cultivo de algodão nos EUA após a Guerra de Secessão (1861), a cidade entrou em declínio. Desesperados, os aristocratas começaram a vender seus bens, até que ficou impossível viver ali. As vendas, além de saques, debilitaram a memória de Alcântara, que ainda luta para se recuperar do baque histórico.
Um dos marcos da época de fartura da cidade são os dois palacetes construídos para receber D. Pedro II, que prometeu uma visita à vila. A briga para ver quem hospedaria o imperador foi tamanha que ele desistiu de visitar Alcântara. Se ruínas e casarões preservados não forem suficientes para fazer o visitante sentir-se em outro século, ainda há um museu que recria a casa de um aristocrata do século 19.
Para lembrar a riqueza - Boa parte da cultura de Alcântara se assemelha à de São Luís, como a tradicional festa do bumba-meu-boi. Mas a cidade tem suas próprias manifestações culturais, como a festa do Divino Espírito Santo. No evento, que dura uma semana e tem seu ápice no Domingo de Pentecostes (50 dias depois da Páscoa), toda a prosperidade da cidade é lembrada. Uma criança é coroada Imperador e os moradores preparam salgados e doces para ofertar a todos que entrarem em suas casas.
Povoados - Se caminhar não está entre suas atividades favoritas - principalmente com sol forte, o que torna tudo muito mais complicado -, um passeio de lancha ''voadeira'' pelo Rio Preguiças pode ser uma boa alternativa para explorar os Lençóis Maranhenses. Apesar de mais contemplativa do que o trajeto em um 4x4, a travessia do rio também é bastante prazerosa.
O ideal é começar o percurso pela manhã, partindo de Barreirinhas, para garantir um almoço ao pôr-do-sol em Caburé, última parada do passeio. Dependendo da maré e da velocidade da lancha - uma pequena embarcação aberta, que comporta até cinco pessoas -, tem-se a impressão de estar trafegando por uma estrada muito esburacada: emoção na certa.
Na paisagem, diversos tipos de palmeiras se confundem. Apenas um guia nativo para explicar as diferenças entre uma juçara (conhecida em outros Estados como açaí), um babaçu ou um buriti. Impressionante mesmo para grande parte dos turistas é o tamanho dos mangues, árvores que compõem os manguezais. As plantas que escondem os caranguejos podem chegar a mais de dois metros de altura.
Vassouras - A vegetação não é a única atração do Rio Preguiças. Ele oferece uma infinidade de peixes, além de animais um pouco menos inofensivos, como os jacarés que habitam os igarapés da região. Para os que não são muito fãs de répteis, a primeira parada da lancha, em Vassouras, pode ser um alento e tanto.
No simpático povoado, formado por poucas cabanas de pescadores, moram Nalberto e sua mulher, Ana, que criam macacos, coelhos e cabras em plena praia. Eles vivem e trabalham no pequeno vilarejo, vendendo água-de-coco e artesanato de palha de buriti.
Além de brincar com os animais, é uma ótima oportunidade para pedir a um dos barraqueiros uma ajuda para desbravar as lindas (porém íngremes) dunas do local. A dica é controlar o tempo durante o banho nas lagoas, pois a animação pode comprometer o resto do passeio - e você ainda terá um ''chão'' pela frente, para curtir a valer.
Visão privilegiada - A segunda parada, em Mandacaru, revela uma vila de pescadores que abriga um farol construído em 1940. Do alto do Farol de Mandacaru, tem-se uma vista de 360 graus de toda a região, saboreada após vencer 160 degraus, altura equivalente a um prédio de 14 andares. Perna e fôlego, claro, são exigidos nessa altura do roteiro.
Antes de voltar de vez para terra firme, chega a hora de conhecer Caburé, em que poucos metros separam o Rio Preguiças do mar. A corrente marítima não é tão calma quanto os visitantes gostariam mas, ainda assim, vale a pena viver todas as sensações que o Parque dos Lençóis pode oferecer. Como o belo pôr-do-sol refletido nas águas do Rio Preguiças. Uma imagem e tanto. (T.K./Agência Estado)





