Lá fora, Tom Zé é o rei da cocada. Aclamado por críticos e músicos norte-americanos, o cantor e compositor baiano tem experimentado a glória chegando a figurar numa lista de ‘‘150 discos mais importantes do século’’ com a coletânea ‘‘The Best of Tom Z钒, lançada em 1990.
A lista foi publicada em maio do ano passado pela revista ‘‘Rolling Stone’’, ampliando o prestígio que já vinha em alta há pelo menos uma década, desde a descoberta do músico por David Byrne. Como se fosse pouco, críticos do New York Times elegeram seu álbum ‘‘Com Defeito de Fabricação’’ entre os dez melhores da última temporada.
Nenhuma surpresa, portanto, que suas composições atraiam artistas contemporâneos interessados em novidades. Foi o que ocorreu com o referido disco, cujo hype propiciou o lançamento do EP ‘‘Postmodern Platos’’ contendo remixes de algumas de suas canções feitos por artistas ingleses e norte-americanos.
O miniálbum chega agora ao Brasil pela gravadora Trama, um ano depois de sair no exterior. As músicas foram extraídas de ‘‘Com Defeito de Fabricação’’, com exceção de ‘‘Canudos’’, uma faixa-extra inédita incluída somente neste disco e que teria ficado de fora do CD. A eletrônica comparece revestindo de timbres e beats o samba torto de Tom Zé.
O material soa difuso, quase experimental e alheio a pistas de dança. ‘‘Defect 2 – Curiosidade’’ recebeu três versões. A primeira traz Dominic Murcott e Sean O’Hagan (líder do grupo britânico High Lhamas e frequente colaborador do Stereolab) manipulando teclados analógicos e xilofones. O resultado é uma sonoridade esparsa, ambiental, que remete aos discos do duo francês Air.
O segundo remix foi feito por John McEntire, integrante da banda Tortoise, de Chicago. Tortoise e Tom Zé trocam figurinhas há um bom tempo. Juntos, excursionaram por seis cidades norte-americanas em 99 e repetiram a parceria em alguns palcos brasileiros no começo desse ano, quando a banda passou pelo país trazida pela gravadora e produtora Motor Music.
McEntire cria uma vinheta e adiciona instrumental à voz do compositor, que dá vazão à letra inspirada: ‘‘Quem é que tá botando dinamite / Na cabeça do século? / Quem é que tá botando tanto piolho / Na cabeça do século? / Quem é que tá botando grilo / Na Cabeça do século? / Quem é que arranja um travesseiro / Pra cabeça do século?’’
A terceira versão é assinada pelo brasileiro radicado em Londres, Amon Tobin. Ele distorce os vocais de Tom Zé, traz o triângulo ao primeiro plano da base percussiva e colide camadas de efeitos e batidas aceleradas. Sean Lennon, o filho de John, remixa ‘‘De feito 5 – O Olho do Lago’’ com alterações abruptas de andamento mas preservando a interpretação da letra concretista de Cid Campos (‘‘No Lago do Olho / De lado no lodo / De olho no lago / no lodo do lago / lágrima afunda / profunda lama / olho / lodo / lado / lago / lama’’).
Esta foi a única sessão de estúdio que contou com a presença de Tom Zé, cuja modesta participação consistiu em extrair sons mexendo em jornais (!). Completando o material, o DJ Sacha Frere-Jones impõe bases instrumentais e exclui os vocais de Tom Zé substituindo-os por vocalises femininas em ‘‘Defect 1 – Gene’’.
Fãs do artista poderão estranhar. Para estes, a boa notícia é o lançamento mês que vem de seu primeiro álbum, gravado em 1968. O disco traz canções como ‘‘São São Paulo’’, ‘‘Sabor de Burrice’’ e ‘‘Não Buzina que estou Paquerando’’. Vai chegar às lojas pela gravadora Sony.

mockup