São Paulo, 14 (AE) - Há dois meses, um dos mais bem reputados repórteres do jornal "The New York Times", Jon Pareles, esteve em São Paulo para visitar Tom Zé. Parecia desembocar ali o ápice de um interesse que já chega a dez anos - interesse das vanguardas nova-iorquinas pelo som híbrido e inteligente deste baiano de 62 anos.
Pareles notou os livros de Faulkner e Rex Sout na estante, os violões, as cordas e os velhos equipamentos dispersos por um apartamento ainda em arrumação. "A conversa foi de sua infância em Irará, uma pobre cidade do nordeste brasileiro, à sua educação de composição clássica contemporânea na Universidade da Bahia, passando pela turnê com a banda Tortoise nos Estados Unidos e o Concílio de Trento, na metade do século 16", escreveu o repórter.
Pareles experimentava, in loco, o jorro verbal de Tom Zé
um sujeito bom de papo, de coração enorme e um observador dos mais perspicazes. Tom Zé foi depois a Nova York, fez o show que foi descrito pelo mesmo jornal como "um dos maiores acontecimentos musicais da década" e voltou com a mesma disposição. Não está todo prosa, mas deveria.
Amanhã à noite, no palco do Sesc Vila Mariana, é a vez de São Paulo - que já teve a chance de aplaudir o trabalho absolutamente original desse baiano em bares de resistência como o extinto Vou Vivendo, mas que só lhe dá valor agora que os americanos o descobriram.
A banda da recente turnê americana foi a Tortoise, de Chicago. "Aqui, minha banda é a costumeira, antiga, companheira
e amada-amante: Lauro Léllis, bateria; Gilberto Assis, que é parceiro e arranjador comigo, baixo; Cristina Carneiro, teclados; Marco Prado, guitarra; Sérgio Caetano, percussão, cavaquinho e vocal", diz Tom Zé.
Sobre o roteiro, ele avisa: deve tocar o "Defeito 3, Politicar" (do qual foi feito o clipe para TV por Daniel Augusto e José Miguel Wisnik); "Defeito 2, Curiosidade"; "Defeito 1, O Gene", parceria com Pedro Braz; "Defeito 11, Tangolomango", parceria com Adoniran Barbosa, "Defeito 5, Olho do Lago", com Cid Campos, e "Defeito 9, Juventude Javali".
Leia a seguir entrevista com o cantor e compositor.
AE - Seu disco "Defeito de Fabricação" tem um quase hit, que é o "Defeito 2, Curiosidade". "Quem é que está botando dinamite na cabeça do século?" Você teve, em algum momento, a pretensão de ver sua música enfrentando a música de massas no rádio e na televisão?
Tom Zé - "Defeito 2, Curiosidade" é uma parceria com Gilberto Assis, baixista de minha banda. A canção tenta desvelar a hipocrisia de Seu Alfred, mais conhecido por Nobel, que depois de enriquecer com a invenção da dinamite instituiu, com sua fortuna, um prêmio que contempla aqueles que trabalham pela paz. A pretensão, não, mas sempre tive a ilusão de que esses versos ternos pudessem comover o público.
AE - Como você vê essa súbita abertura dos americanos para uma nova música experimental, não rotulável, improvável e desconhecida? Acha que o interesse advém do próprio esgotamento da música popular deles ou de uma afirmação legítima da nossa qualidade musical?
Tom Zé - O dólar tem um ouvido mais acurado do que seus possuidores. Caça conteúdos pelo mundo. Por isso, precisa do que é experimental, do não rotulável, do desconhecido. O esgotamento dos estilos, em todos os terminais da arte, sempre provocou uma chamada crise a qual, muitas vezes, provoca uma volta por cima, uma renovação. O maestro Júlio Medaglia costuma dizer à sua esposa, Sabine, que é alemã: "Aqueles países desenvolvidos do norte da Europa não têm folclore. São países pobres, exangues, como cana mastigada." Ele se refere justamente ao fato de o Brasil ter um folclore rico. Nas cidades, muitos sensitivos acabam aspirando esses gases que vêm de sob o barro da terra e, como oráculos de Apolo, se inspiram e fazem o mangue-beat, o tropicalismo, a bossa-nova. Enquanto nossos cheques musicais tiverem fundos, e parece que isso demoraria muito para esgotar-se, só não possuiremos uma música de qualidade, como temos atualmente, se o processo de lobotomização dos poderes instituídos for bem-sucedido.
AE - Em texto na contracapa de "Com Defeito de Fabricação", você diz que acabou a era do compositor, a era autoral, e que começa a era do plagicombinador. Nós vemos isso agora com bandas como Prodigy e Chemical Brothers, heróis que apertam botões no palco com alguma performance à sua frente. Mas
há cerca de dez anos, aquela dupla Milli Vanilli quase foi queimada em praça pública porque descobriram que tudo que fazia era em estúdio e nem sequer cantava em seus discos. Quer dizer então que a ética é uma questão de circunstância? Qual é sua opinião acerca da propriedade intelectual em dias de samplers e computadores?
Tom Zé - Corte e costura, fabricação de picolé, música techno, música acústica: em qualquer setor há gente trabalhando bem e gente trabalhando mal. Quando eu anuncio a era do plagicombinador, somente registro um fato. Veja, todos os romances e novelas são copiados do padrão homérico, da "Odisséia". Nós não podemos falar em propriedade intelectual de todos os sampleadores, bons ou maus, que a humanidade tem colocado nas estantes das bibliotecas.
AE - Como foi a turnê pelos Estados Unidos e qual a reação do público?
Tom Zé - A turnê dos Estados Unidos, o sucesso dela, já vinha acontecendo em minhas turnês no exterior. Só que desta vez tive o privilégio de contar com a presença de toda a imprensa dos Estados Unidos para reverberá-lo. Eu me lembro de David Byrne me avisando: toda a inteligência de Nova York estará lá, jornais, cronistas, intelectuais. Uma coisa particularmente curiosa foi o público inventar de cantar a canção Um ah e um oh. Essa canção não convida a tal. Não foi feita para isso. É só uma brincadeira de 55 segundos. Entretanto, por capricho que só Deus sabe onde, os americanos foram buscar, resolveram cantar também essa cantiga-de-bolso. Recebi um e-mail da emissora de rádio universitária de San Francisco, dizendo: "Com seu jeito de viver e de atuar no palco, você modificou nossa vida."
AE - Quem esteve lá disse que você ficou especialmente emocionado com a ovação do público no festival Abril Pro-Rock, em Recife. Por quê? O que significou o reconhecimento naquela mostra?
Tom Zé - No Abril Pro-Rock, houve uma dessas coincidências elétricas. Eu fora enterrado vivo em 1940 e em 1970. Estava com algum receio do ano 2000, mesmo porque estou cansado de ver minhas idéias "gozando com o palco dos outros". Naquele Abril, fechou-se a possibilidade de um enterro em dízima periódica de 30 em 30. Quem é desenterrado pelo menos se sente emocionado, que diabo.
AE - Leio na revista "Rolling Stone" que as meninas japonesas da banda CiboMatto (as sucedâneas de Yoko Ono) chamam você de "our brazilian father". Pessoalmente, quem você diria que é o seu brazilian father? Quem você costuma reverenciar de modo mais alongado?
Tom Zé - Meus brazilian fathers são João Redondo e Euclides da Cunha. Quer dizer: o folclore e "Os Sertões". Tento, com as canções, explicar a idéia do andróide com defeito de fabricação, porque acredito fielmente, juro que não somos burros e podemos acompanhar uma idéia, mesmo em música popular. Depois, preciso de toda a inteligência, da mais fina inteligência, da mais atenta, porque o que eu faço não é uma grande arte, nem uma tese universitária. São simples cançõezinhas, que prefiro chamar de tentativas. Porque nunca consegui fazer uma música.
AE - Essa pergunta é de brincadeira, pura provocação. Vendo o show de Gilberto Gil para o recebimento do seu Grammy (que ele chama de "grêmio", tirando sarro), vejo que ele está cada vez mais parecido fisicamente com Luís Gonzaga. Você também está ficando um pouco parecido com o Luís Gonzaga. Acho até que o Caetano também está ficando meio parecido com o Luís Gonzaga. Você acha que vocês foram vítimas de uma maquiavélica clonagem sertaneja?
Tom Zé - Sua pergunta é tão boa que eu faço dela um plágio e copio como se minha fosse: vejo que Gilberto Gil está cada vez mais parecido com Luís Gonzaga; você, Tom Zé, também está cada vez mais parecido com Luís Gonzaga; acho até que Caetano está ficando meio parecido com Luís Gonzaga. Vai ver que todos nós fomos vítimas de uma maquiavélica clonagem sertaneja.
Serviço - Tom Zé. De hoje a quinta, às 21 horas. De R$ 5 00 a R$ 10,00. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, em São Paulo
tel. (011) 5080-3147.

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