Curitiba - Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou as eleições, no final do ano passado, lá estava Tom Zé propagando a música ''Estrela do PT'' pela internet. Este ano, nem bem o presidente Bush anunciou a guerra contra o Iraque, pegando o mundo de surpresa, o cantor e compositor baiano saiu com a música ''Companheiro Bush'', que já tem até versão em inglês. Essa sintonia imediata com a realidade tem uma explicação: o músico tem aversão a repetir o que já está estabelecido e busca a novidade, seja de temas ou de ritmos, para compor o seu trabalho.
Tom Zé faz show amanhã, na Sociedade Vasco Da Gama, em Curitiba, trazendo as músicas do disco ''Jogos de Armar'' (Trama 2000). E ainda que as duas canções citadas acima não façam parte disco e do repertório do espetáculo, o músico avisa: ''Eu sempre acabo tocando as músicas novas, que ainda não foram gravadas em disco, e também as mais antigas porque o público pede''. Pois não é que até as músicas ''mais antigas'' estão concatenadas com o que há de mais atual?
O próprio compositor cita como exemplo ''Curiosidade'' (''Quem é que tá botando dinamite na cabeça do século?'') e ''ONU: Vendem-se armas'', de 1988, quando ele já abordava a violência e o militarismo tão comentados atualmente. ''Acho que isso se chama estigma'', diz o músico para tamanha coincidência. Ele conta que na década de 60, Rita Lee definiu bem essa tendência quando o chamou de ''parceiro do futuro''. ''Estou sempre olhando para frente'', disse à Folha.
Essa condição lhe rendeu uma peculiaridade. Mesmo depois de ter ultrapassado os 60 anos de idade, a cada ano o público de Tom Zé vem reduzindo a faixa-etária. Ele conta que nos seus dois últimos discos, a idade mínima das pessoas que compram os seus CDs é de 18 a 20 anos. ''O público jovem é o meu patrão'', brinca. Tom Zé conta que é esse público que leva em consideração quando senta para compor o seu trabalho. ''Eles consomem a rebeldia e eu uso a rebeldia como forma de arte'', define.
É por isso, talvez, que Tom Zé vá na contramão do que é comum para outros artistas da sua geração. Enquanto outros músicos que fizeram sucesso na década de 70, revolucionando a música brasileira, insistem em gravar ''remembers'', acústicos e afins, com sucessos antigos, Tom Zé tenta inovar a cada trabalho. E consegue.
Nascido em Irará (BA), no interior da Bahia, ele é uma das figuras mais originais da MPB. De um pontapé inicial na carreira no início da década de 60, com os espetáculos ''Nós, Por Exemplo'' e ''Velha Bossa Nova e Nova Bossa Velha'', com parceiros como Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Com esse grupo foi para São Paulo, onde participou do espetáculo ''Arena Canta Bahia'' e do disco-chave para o movimento tropicalista, ''Tropicália ou Panis et Circensis'', lançado pela Philips em 1968 e que trazia a composição ''Parque Industrial'', de autoria dele.
Foi nesse mesmo ano que o músico conseguiu o primeiro lugar no Festival de MPB com ''São São Paulo, Meu Amor'' e lançou seu primeiro LP individual, ''Tom Zé'', seguido por outros discos na década de 70. Mas seu álbum ''Todos os Olhos'', de 1973, foi considerado inovador demais, e não teve boa aceitação, afastando o compositor da mídia brasileira. Nessa época, ele chegou a gravar outros discos de menos sucesso, como ''Correio da Estação do Brás'' (1978) e ''Nave Maria'' (1984).
Mas foi no final da década de 80 que sua carreira deu uma reviravolta, quando o músico David Byrne descobriu num sebo o disco ''Estudando o Samba'', LP que Tom Zé gravou com parceiros como Elton Medeiros. Byrne seria então o principal responsável por lançar o compositor no mercado internacional por meio de seu recém-criado selo, Luaka Bop. O disco ''The Best of Tom Zé'', editado por Byrne em 1990 foi aclamado pela crítica e até hoje é considerado uma das pérolas do músico.
Nas décadas seguintes, Tom Zé passou a fazer turnês pela Europa e Estados Unidos, mas esse sucesso só se refletiu no Brasil em 1999, com o lançamento do disco ''Com Defeito de Fabricação''. A partir daí Tom Zé voltou ao cenário da música brasileira. Desde então, tem ficado atento com o que há de novo nas tendências dos instrumentos e no cenário nacional, fazendo o que chama de ''imprensa cantada''.
Estilo que poderá ser conferido amanhã, em única apresentação. Para o show, Tom Zé traz os músicos de sua banda e também seus instrumentos nada convencionais. Os arranjos musicais empregam, além do baixo, bateria e guitarra, o enceroscópio (agrupamento de enceradeiras, liquidificadores e batedeira), buzinório e hertzé (uma espécie de ''pai'' do sample).
Depois do show de amanhã, o músico avisa que vai reduzir o ritmo de apresentações para se concentrar no seu próximo trabalho, um disco a ser lançado em setembro deste ano. Sobre o novo CD, no entanto, prefere apenas citar um ditado baiano: ''mulher que fala muito, perde logo o seu amor''. Ele, portanto, vai se resguardar de projeções sobre o trabalho. Seu público, portanto, terá que aguardar o resultado.
Serviço: Tom Zé em Jogos de Armar, amanhã a partir das 23 horas no Calamengau (Sociedade Vasco da Gama), na Rua Dr. Roberto Barrozo, 1.190 - Mercês
Ingressos à venda no Calamengau, Café do Teatro e Armazém do CD. Antecipados: R$ 13,00. No dia: R$ 15,00. Informações: (41) 338 7766.

mockup