Tom Zé lança CD single com protesto contra a vaia levada por João Gilberto em SP
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sexta-feira, 10 de dezembro de 1999
Por Mauro Dis 
São Paulo, 10 (AE) - Não é um compromisso, mas uma vontade do compositor Tom Zé: sempre que algum acontecimento provoque (nele e nos outros) reação forte, repercuta, faça surgir acaloradas discussões, ele compõe uma música ou duas sobre o assunto e lança num CD. A série, se vier a existir, vai ter o título de "Imprensa Cantada". O primeiro volume já existe. O assunto é a vaia que João Gilberto levou na inauguração do Credicard Hall. João reclamou da qualidade do som. O público vaiou. Tinha havido um coquetel, antes do espetáculo. João disse: "Vaia de bêbado não vale". O título da música do "Imprensa Cantada" número um é exatamente este: "Vaia de Bêbado não Vale".
Foi composta por Tom Zé e Vicente Barreto. É apresentada
no disco, em duas versões, uma cantada, outra instrumental. O single (um hábito que o mercado brasileiro não assimilou: singles são CDs com uma, duas, até três músicas, que custam mais barato) tem uma terceira faixa, outra parceria de Tom Zé e Vicente Barreto. Vale por um panfleto ou defesa de tese. Estabelece a convição dos autores. Chama-se "No Dia em Que a Bossa Nova Pariu o Brasil". Nesse dia, o nosso céu de anil não ficou mais anil, diz a letra. "Nem mesmo o presidente encontrou motivo/ Pra um ponto facultativo".
Não entenderam a importância, é o que a letra canta. Não se percebeu que o Brasil estava sendo parido. "No Dia em Que a Bossa Nova Pariu o Brasil" é composição de 1992. Tom Zé a apresentou ao produtor David Byrne, que o lançou nos Estados Unidos (e no mundo). Mas, concluíram ambos, o assunto era muito regional. Dizia respeito ao Brasil, talvez a letra não fosse entendida. Não entrou no disco produzido por Byrne, "As Ancas da Tradição" (ou melhor: The Hips of Tradition).
"Vaia de Bêbado não Vale" usa a primeira frase (musical e poética) de "No Dia em Que a Bossa Nova Pariu o Brasil". A letra lembra aquele 1958 da invenção da bossa: "O Brasil só exportava matéria-prima (....)/ E o mundo dizia/ Que povinho retardado/ Que povo mais atrasado". Com a invenção da bossa, uma "Europa assombrada" passou a dizer: "Que povinho audacioso/ Que povo civilizado". Arremata, em uma de suas partes: "Por isso, meu nego: vaia de bebo não vale/ De bebo vaia não vale".
A capa do disco é diagramada como uma página de jornal. Tom Zé Martins ocupa o cargo de editor-chefe de "Imprensa Cantada", que tem lema: "Um jornal a serviço da Música". Música, com maiúscula. Traz as letras das músicas e dois editoriais - um de janeiro de 1959, em que Tom Zé lembra como a bossa-nova bateu nele, no dia em que primeiro ouviu João Gilberto. Estava ainda na Bahia. O outro editorial é de agora. Tem o título de "Bossa Nova x Tropicália". Tom Zé compara a importância dos dois movimentos. Louva-se o tropicalismo. A bossa, na figura de João Gilberto, seu inventor, é vaiada. Caetano, criador do tropicalismo, estava a seu lado, no palco, no dia da vaia. O single está nas lojas. A gravadora Trama sugere preço para o consumidor de R$ 10,00. A bossa "Vaia de Bêbado não Vale" vai fazer parte do novo disco do compositor, que ficará pronto em janeiro e será lançado depois do carnaval.


