Tom Zé, o último guru da vanguarda pop, traz seus ‘‘jogos de armar’’ ao Filo. O show é hoje, às 23 horas, no Cabaret. É sua primeira apresentação em Londrina em mais de quatro décadas de carreira.
Vem acompanhado de uma banda e de uma parte de seus instrumentos experimentais. Continua recuperando os anos perdidos no ostracismo, que amargou desde o fim do movimento tropicalista, do qual foi um dos fundadores ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia.
Os convites para shows não param. Ontem, ele cantaria em Ribeirão Preto. O núcleo do show é o repertório do CD ‘‘Jogos de Armar’’, lançado há poucos meses pela gravadora Trama. Mas poderia ser um apanhado da trajetória que poucos se dariam conta. Não há hits radiofônicos no currículo do artista, salvo uma ou outra canção de remota lembrança.
Tom Zé já foi ‘‘maldito’’. Hoje desfruta de invejável reputação internacional. Seu nome começou a ganhar projeção no exterior em 1990, quando o músico David Byrne o descobriu e o lançou pela gravadora Luaka Bop. Em seguida, artistas e grupos como Beck, Cibo Matto, Cake, Tortoise, Stereolab e Sean Lennon passaram a saudá-lo como ‘‘gênio’’ em variadas publicações musicais.
Na esteira, a revista Rolling Stone elegeu a coletânea ‘‘Brazil Classics 4: The Best of Tom Z钒 entre os 150 discos mais importantes lançados nos anos 90. Mas foi preciso o mundo render-se às suas desarmonias melódicas para o Brasil redescobrí-lo. No ano passado, finalmente vários de seus antigos álbuns saltaram do baú para as prateleiras das lojas, entre eles o disco de estréia ‘‘Tom Zé – Grande Liquidação’’, de 1968.
Sua música inventiva, contudo, permanece intrigando quem a ouve. É o que a platéia poderá conferir hoje à noite, quando ele subir ao palco acompanhado por Sérgio Caetano (guitarra), Gilberto Assis (baixo), Cristina Carneiro (teclados), Jarbas Mariz (percurssão) e Lauro Lellis (bateria). Depois tocam os grupos locais Batistella Trio e Matéria-Prima Brasileira.
O que você preparou para este show?
Primeiro, eu gostaria de dizer que há certas razões de ordem sentimental nesta minha ida a Londrina, porque meu filho (Everton) se casou com uma moça daí. Aliás, vou encontrá-lo no aeroporto. Faz tempo que não vejo ele.
Ele mora em Londrina?
Ele está instalado em Campo Mourão, mas foi diversas vezes a Londrina por causa do namoro quando ainda era estudante. Ele formou-se em Medicina e sempre quis trabalhar no interior. Um dia, o convidaram para tomar conta de um setor no hospital de Campo Mourão.
Ao contrário de seu filho, essa vai ser a primeira vez que você vem a Londrina. O show vai ser um apanhado da carreira?
Vou mostrar as músicas nucleares de meu último disco,‘‘Jogos de Armar’’. Vou apresentar músicas como ‘‘Passagem de Som’’, ‘‘A Chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI’’, ‘‘Jimi Renda-se’’, ‘‘Chamegᒒ etc. É a espinha dorsal do disco. Mas vou cantar também outras músicas cenograficamente interessantes como ‘‘Defeito 3: Politicar’’ (do álbum anterior Com Defeito de Fabricação), além daquelas que podem mudar o roteiro do show seja porque alguma coisa aconteceu e saiu na imprensa seja porque alguma coisa aconteceu a partir da própria experiência de estar em outra cidade.
Você vai trazer os instrumentos experimentais utilizados em ‘‘Jogos de Armar’’?
Não vai dar porque não caberiam todos no palco. Mas vou levar alguns, como o hertzé (teclado em que cada tecla aciona um determinado tipo de som captado em fita magnética e retrabalhado eletronicamente), além da banda. Esse show teve o ensaio geral em Londres, no mês passado, durante um festival chamado ‘‘Uma Série de Extraordinários Eventos ao Vivo’’ e que tinha participação de Stockhausen, Enrico Morriconi e Werner Herzog. Fiz o encerramento do festival no dia 9 de abril. Veja só: o ensaio foi em Londres e agora vou estrear o show em Londrina.
Desde a sua ‘‘redescoberta’’, no começo da década de 90, você tem feito mais shows no Brasil ou no exterior?
Nos primeiros anos, até 99, eu realmente trabalhei mais lá fora. Mas nos últimos dois anos, tenho feito muito mais shows no Brasil. Em 99, aliás, nem fiz excursão internacional. Acho as viagens pela Europa muito cansativas, por serem todas feitas de ônibus. No ano passado, fiz uma excursão nos Estados Unidos porque a gravadora americana (Luaka Bop) estava lançando o meu disco lá fora. Foram aqueles shows com o Tortoise (banda de pós-rock). Fiz moralmente para atender a gravadora. E este ano, só fui a Londres porque os organizadores do festival já tinham insistido comigo no ano anterior.
E os discos, você está vendendo mais aqui ou no exterior?
Estou vendendo bem tanto aqui como lá fora, inclusive meus trabalhos mais antigos, meus primeiros discos. Em Londres mesmo, vi meus discos nas lojas. No ano passado, lançaram 10 discos meus no mercado. Isso depois de passar dez anos sem lançar disco!
Você está envolvido em algum novo projeto?
Estou compondo, em parceria com Gilberto Rosa, a trilha sonora do novo espetáculo do Grupo Corpo (companhia de dança de Belo Horizonte). É um trabalho que está me botando de cabelos brancos. Agora estou começando um projeto de parcerias com os jovens. Recentemente, o Beto Lee (filho de Rita Lee) passou um e-mail me pedindo uma letra para fazer um rock’n’roll. A Penélope (banda de Salvador), que gravou ‘‘Namorinho no Portão’’ de meu primeiro disco, também me pediu uma nova canção. E O Tianastácia (banda de Belo Horizonte) já está fazendo sucesso com ‘‘Conto de Fraldas’’, que eu tinha gravado num compacto simples.
Como você definiria ou descreveria sua música?
Antes de tudo, eu diria que a música é um pretexto. O eixo da coisa, o que produzo mesmo é rebeldia, esse tipo de proteína social que é consumida principalmente por pessoas que estão entre os 13 e vinte e tantos anos. É a fase em que a juventude ainda acredita em alguma ética, em alguma distribuição mais humana das riquezas. Por isso, até hoje canto para estudantes. Em Londres, o teatro estava lotado com dois mil jovens, alguns faziam parte de bandas. Segundo dados colhidos pela Trama (gravadora que lançou os dois últimos discos de Tom Zé), a média de idade do público que compra meus discos é de 13 anos. Estou sempre trabalhando em cima de uma inquietude, em cima da tentativa de fazer alguma coisa nova com uma certa virulência. A juventude percebe essa intenção.
A juventude de hoje é rebelde?
Cada geração nega a que veio antes dela. Eu me lembro que imediatamente após 1970, eu estava muito curioso em saber como os jovens compositores iriam proceder em música. E ocorreu algo inesperado: eles atacaram a afinação, desrespeitavam uma coisa pela qual nós tanto lutávamos, pela qual tínhamos tanto cuidado. Era uma das maneiras de eles praticarem rebeldia. E hoje, a rebeldia está na maneira como os jovens usam o computador e a internet. Está nessa atitude de enfrentar a massificação, a tecnologia e a grande mídia criando formas alternativas de arte, comunicação e difusão. Está nessa experiência de, justamente, se apropriar das vacinas criadas pelo Olimpo industrial para combater a rebeldia.

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