Tom na memória
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de janeiro de 2002
Guilherme Sierra Especial para a Agência Estado 
Na praia de dentro tem areia / Na praia de fora tem o mar / Um boto casado com sereia / Navega num rio pelo mar / O corpo de um bicho deu na praia / E a alma perdida quer voltar / Caranguejo conversa com arraia / Marcando a viagem pelo ar.
Versos como este, da canção Boto, estão entre os prediletos do músico e arquiteto Paulo Jobim, filho mais velho de um dos compositores mais importantes na história da música brasileira. É por causa do senso de ecologia, diz. Ele gostava muito do Brasil. Fazia um urubu ficar bonito com suas composições, exalta Luiz Roberto Oliveira, amigo da família, produtor musical e coordenador do Clube do Tom, o maior banco de dados do artista disponível na internet (www.jobim.com.br) no momento.
É curioso observar como na vida de Tom Jobim as coisas sempre se entrelaçam: Boto é a faixa de abertura do disco Urubu, de 1975. Na contracapa daquele álbum, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim escreveu um longo texto poético admirando a ave malvista pela maioria das pessoas.
Estas foram apenas algumas recordações de amigos e familiares no último dia 25 de janeiro, data em que Tom completaria 75 anos de idade. O maestro morreu há sete anos, no Hospital Mount Sinai, em Nova York, mas breves acordes de Garota de Ipanema e Águas de Março continuam sendo suficientes para qualquer cidadão do mundo que goste de música reconhecê-lo. E isso não é força de expressão.
Estive em lugares distantes e as pessoas revelam uma admiração muito grande. Eu, particularmente, sempre tive a imagem de pai e os netos têm a imagem do avô. Mas todos crescemos cientes da personalidade que ele representava, comenta Paulo.
Logo depois de sua morte, esforços têm sido colocados à disposição para manter viva a memória e a obra do compositor. Em 1996, o disco Antonio Brasileiro (1994), o último lançado em vida pelo autor, ganhou o prêmio Grammy na categoria Jazz Latino. Não que Tom fosse propriamente um jazzista - trata-se apenas de uma classificação para músicas refinadas do continente latino-americano. Ele não era um músico improvisador, suas composições eram absolutamente organizadas, o que o distanciava desse estilo musical, explica Oliveira.
Nesse ponto, mais um entrelaçamento de fatos. Tom - usando um esperto trocadilho com seu sobrenome no título deste álbum - reafirmava diante da mídia nacional que, definitivamente, mais uma vez, não era americanizado e que as coisas do Brasil eram sua fonte de inspiração. Estão lá músicas como Só Danço Samba, feita com Vinícius de Moraes, e Piano na Mangueira, com Chico Buarque.
Ele ouvia muita coisa, incluindo o jazz, claro; no entanto foi buscar muitas referências em Heitor Vila-Lobos e compositores franceses, conta Oliveira. A bossa nova, sim, influenciou os grandes artistas norte-americanos, tanto que foi Frank Sinatra quem ligou para ele pessoalmente numa noite no Bar Veloso, em Ipanema, convidando-o para fazer uma parceria, diz.
Tom Jobim não tinha um relacionamento muito harmonioso com os meios de comunicação. Achava que as críticas não davam o devido valor ao seu trabalho. Tom morreu insatisfeito com a imprensa, afirma a viúva do maestro, a fotógrafa Ana Lontra Jobim. A sensação é a de que, no exterior, o reconhecimento é maior. Há um certo mito, uma vez que suas composições sãos estudadas nas universidades norte-americanas com grande respeito, diz Ana.
Gente do mundo inteiro participa do Clube do Tom, mandando e-mails, elogiando, incentivando, fazendo perguntas e sugestões, como um cartunista da Itália, chamado Biagio di Carlo, que enviou um belíssimo desenho, conta Luiz Oliveira. A família continua alimentando um arquivo com artigos e reportagens publicadas sobre ele desde 1952.
Dois livros biográficos tiveram participação fundamental na manutenção do nome de Tom Jobim. Um Homem Iluminado, da irmã caçula Helena Jobim, de 1996, veio acompanhado de um CD e é um profundo retrato da pessoa que o acompanhou de perto por toda a vida. No ano seguinte, o escritor e jornalista Sérgio Cabral lançou Antonio Carlos Jobim - uma biografia, após intensas pesquisas próprias do jornalismo biográfico, produzidas por alguém que também esteve muito tempo ao lado do biografado.
Nos últimos dois anos, demos um mergulho profundo na obra dele, ressalta Ana. Essa imersão começou em dezembro de 2000 com a produção e lançamento do livro Cancioneiro Jobim, o primeiro de uma série de volumes que pretende documentar, com partituras, textos e imagens, toda a vasta obra do compositor - trabalho que para ela tem valor inestimável. Ele queria muito isso: retratar com fidelidade o que compôs em 50 anos, conta.
Em seguida, em meados de 2001, veio a criação do Instituto Antonio Carlos Jobim, cujo objetivo principal é permitir que o maior número de pessoas possível tenha acesso a todos os detalhes da obra do compositor.
Há, também, a intenção de divulgar o obsessivo interesse de Tom por temas ligados à preservação da natureza, através de projetos de educação ambiental. Primeiro veio o Tom da Mata, através do qual kits educacionais sobre a Mata Atlântica foram distribuídos em cerca de 800 escolas públicas espalhadas pelo Brasil (principalmente nos Estados onde está a floresta). Atualmente, está em evolução o programa Tom do Pantanal, com o mesmo perfil.
O livro Toda a Minha Obra é Inspirada na Mata Atlântica só veio reforçar essa tendência de Jobim. Lançado em dezembro do ano passado, é uma reunião de mais de duzentas fotos de Ana com textos de Tom organizados pela jornalista Maria Lúcia Rangel. Esse trabalho me deixou realizada, enfatiza a fotógrafa.
Carioca da gema, Tom nasceu justamente no dia em que São Paulo completava 373 anos de fundação. No ano passado, no aniversário de ambos, veio à tona uma música inédita para um comercial de televisão homenageando a capital paulista.
Te amo São Paulo foi gravada em 1992, com a Nova Banda, grupo que ele criou com Paulo Jobim (violão), Danilo Caymmi (flauta e voz), Jacques Morelenbaum (violoncelo), Tião Neto (baixo) e Paulo Braga (bateria). Existe uma outra canção, não conhecida, feita com o compositor João Donato, que está sendo editada em estúdio, revela Luiz Oliveira.
No Instituto, todos os textos, imagens e músicas de Tom Jobim estão em processo de digitalização para serem expostos no site oficial (www.antoniocarlosjobim.com.br), a ser lançado em dois meses. Ana Jobim afirma que há uma expectativa em se instalar o espaço físico da instituição no Jardim Botânico, no Rio. No meio de tanta garimpagem em estúdios e rascunhos, muita novidade deve surgir nos próximos meses.


