É com cautela que Maria Fernanda Cândido escolhe seus passos na tevê. Negociando seus trabalhos por obra com a Globo há quase uma década, a atriz garante que tenta conciliar os convites oferecidos pelos diretores da emissora com a autonomia que conquistou ao longo do tempo. "Prefiro mesmo fazer trabalhos mais curtos, que não me tirem tanto de casa. Tenho dois filhos pequenos e priorizo a família. Tenho uma relação ótima com a emissora e prefiro ser contratada por obra. Assim, consigo selecionar mais", assume.
Dentro dos critérios que impõe a si mesma para atuar, ela viu a chance de unir o útil ao agradável ao ser chamada por Luiz Fernando Carvalho para a série "Correio Feminino", do "Fantástico". Em oito episódios, com cerca de 10 minutos de duração cada, Maria Fernanda é Helen Palmer, pseudônimo adotado por Clarice Lispector para escrever colunas femininas no jornal "Correio da Manhã", trabalho que exerceu na virada dos anos 1950 para 1960. "O projeto é muito interessante e viável para mim. A série trata essencialmente do universo da mulher e Clarice abordava esse elemento com maestria. Fora que minha participação é uma das coisas mais diferentes que já fiz na tevê", analisa.
A diferença apontada pela atriz está no formato idealizado pelo diretor. A personagem aparece de forma sutil no vídeo e funciona como narradora das crônicas criadas por Clarice. Em cena, quem domina a imagem são as atrizes Cintia Dicker, Alessandra Maestrini e Luiza Brunet, que representam três gerações distintas de mulheres. Sem falas, o trio tem de caprichar nos olhares, expressões e gestual, enquanto Maria Fernanda empresta sua voz aos fatos abordados. "Tive um trabalho de composição focado em encontrar o ponto de encontro entre Helen e Clarice. Achar um tom de voz específico para isso foi uma meta. Ensaiei muitos dias dentro de uma cabine, onde pude sentir a temperatura e as nuances da minha fala. Eu ensaiando sem parar de dentro da cabine e as meninas vivenciando o que era dito do lado de fora", explica.
No mínimo inusitado, o processo ainda foi além. Com estética minimalista – inspirada em peças publicitárias dos anos 1950 – e cenários totalmente vazios, os únicos companheiros de cena da atriz são um banco e um microfone. "Por sorte, a riqueza do figurino ajudou muito na composição do personagem. A elegância daquela época é muito marcante e a série evidencia isso", conta.
Feliz com o novo e "breve" trabalho, Maria Fernanda encarou os três meses de ensaios e gravações como um reencontro. Foi sob a batuta de Luiz Fernando Carvalho que a intérprete ficou conhecida nacionalmente, através da sensualidade natural de Paola, de "Terra Nostra", novela de Benedito Ruy Barbosa, de 1999. "É bom quando um diretor faz a atriz ir além das expectativas. Meus trabalhos com o Luiz sempre fogem do óbvio. Lembro com carinho de séries como 'Capitu' e 'Afinal, O Que Querem as Mulheres?'", destaca.
Natural de Londrina, interior do Paraná, e radicada em São Paulo, atualmente, além de cuidar dos pequenos Tomás e Nicolas – de sete e cinco anos, respectivamente –, Maria Fernanda dedica-se às ações promocionais da nova série e ao espetáculo "A Toca do Coelho", adaptação brasileira do sucesso da Broadway. Ao lado de Reynaldo Gianecchini, a atriz se diz à vontade no drama ao retratar a história de um casal que lida de forma torturante com a morte de seu filho. "É um texto forte e denso, onde a dor da perda vai destruindo tudo ao redor", conta. A peça faz, até o final do ano, temporada em São Paulo. E, em seguida, reestreia no Rio de Janeiro para depois visitar outras capitais brasileiras. "O teatro é renovador. Boa parte do que sou como atriz hoje é fruto dos textos que fiz nos palcos", ressalta.

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