Londrina
Tom Jobim quase não gravava outros compositores em seus discos de carreira. Abria uma exceção aqui ou ali e, assim mesmo, com um toque personalíssimo. Assim aconteceu com ‘‘Trem Azul’’ (Ronaldo Bastos e Lô Borges) em seu último trabalho - ‘‘Antonio Brasileiro’’ (94) - e mesmo assim vertida para o inglês. Entretanto, Tom não se furtava de participar de alguns projetos especiais fosse cantando, tocando ou acompanhando algum nome da MPB. Tais projetos são os songbooks idealizados por Almir Chediak. Tom participou de grande parte dos discos que têm, por princípio, meio e fim, convocar intérpretes dos mais diferentes naipes para registrar partes mais significativas do cancioneiro de um determinado compositor.
Ele mesmo foi um dos escolhidos. Da primeira vez através da impressão de suas suas músicas devidamente cifradas para violão e piano; a outra com um songbook instrumental, de 95, que reuniu algumas feras como Egberto Gismonti, Wagner Tiso e Paulo Moura. Tom merece tudo isso. Foi e para sempre será uma das principais referências da MPB, um artesão, um sofisticado ‘‘fazedor’’ de músicas e, muitas vezes, um inspirado letrista. Ainda sob forma de mito em construção, Tom Jobim está sendo duplamente homenageado pela Editora Lumiar com uma biografia (ver matéria nesta página) e também um CD em que ele participa de faixas em alguns dos mais expressivos songbooks lançados.
O disco recebeu o nome de ‘‘Minha Alma Canta’’. Catorze faixas, das quais oito em que Tom divide os louros com Chico Buarque, Gal Costa, Edu Lobo, entre outros. Mesmo com todo o zelo e sinceridade na proposta - sugerida pela família - ‘‘Minha Alma Canta’’ não chega com peso histórico. Tem apenas um certo peso fonográfico porque afinal de contas Tom é Tom e isso justifica qualquer iniciativa nesse sentido.
Com o coraçãoMas verdade seja dita. À parte de sua irrepreensível obra, Tom Jobim nunca foi um bom cantor. Nos últimos anos, o desgaste de sua voz era tão audível que a maneira encontrada por ele foi sussurrar e utilizar o que ainda restava dos registros baixos. E, muitas vezes, tudo isso acompanhado de vigorosas fungadas. Cabia às suas backing vocals segurar as pontas. E no final soava tudo muito bem, obrigado.
Por esses e outros motivos é que ‘‘Minha Alma Canta’’ deve ser ouvido apenas com o coração. Ou seja, deve-se passar por cima das deficiências vocais de Tom Jobim como, por exemplo, em ‘‘João Ninguém ’’ (de Noel Rosa, incluída no songbook do compositor). Ouvindo com o coração, é possível se sensibilizar quando Tom canta sozinho. ‘‘Na Batucada da Vida’’ (Ary Barroso - Luiz Peixoto) é uma coisa de louco.
Porém, os melhores momentos ficam por conta de Tom e companhia. Aí é emoção pura seja com Gal Costa na belíssima ‘‘Janelas Abertas ’’ ou com Paula Morelebaum na singela ‘‘Por Toda Minha Vida’’ (ambas em parceira dele com Vinícius de Moraes). Até um certo Chico Buarque canta bonitinho ‘‘Choro Bandido’’ (Edu Lobo e Chico Buarque) que, pela primeira vez, foi gravada em ritmo de choro canção.
Diante do legado deixado pelo maestro, ‘‘Minha Alma Canta’’ pode ser encarado até como um disco dispensável. Mas há tanta sinceridade no trabalho que se alguém cair em tentação e comprá-lo não estará cometendo nenhum pecado mortal e nem jogando dinheiro fora.

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