Um trabalho para os milhares de deuses hindus, que a autora de novelas Glória Perez tenta realizar em alguns meses de exibição de ''Caminhos da Índia'': fazer os noveleiros brasileiros mergulharem nas águas do Ganges - o rio sagrado e diretamente ligado à cultura e religião indianos - saindo banhados pelas crenças, tradições, costumes e comportamentos tão diferentes dos nossos.
Difícil é o argumento não parecer caricato, crítica que a autora já recebeu em ''O Clone'' (2001/2002), que bateu recordes de audiência falando sobre o universo árabe.
O que esperar então desta trama que mostra uma cultura que ainda é um enigma de um gigante de mil faces para os brasileiros ?
O casal de professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Santosh Shelly Sharma, 60 anos, do Departamento de Física, e Naresh Kumar Sharma, 60 anos, do Departamento de Matemática, mora em Londrina há 28 anos. Os dois formam uma das duas únicas famílias indianas da cidade.
Shelly e Naresh estão acompanhando ''Caminhos da Índia'' e elogiam o trabalho de pesquisa realizado pela produção da novela, mas reconhecem alguns exageros.
''Os indianos gostam muito de música e sempre estão escutando alguma coisa. Porém, na novela, os personagens dançam o tempo todo. É um pouco exagerado. No cotidiano não é assim'', comenta Shelly, lembrando a importância das danças em festivais, como o Diwali, um dos maiores da Índia, realizado durante cinco dias.
O panteão indiano, que na novela é povoado ainda mais pelas superstições dos personagens, também é uma Índia vista por uma lente de aumento.
Shelly lembra que todos as culturas têm as suas superstições e que, entre os indianos existem os que não fazem nada sem consultar os sacerdotes, mas não é regra. Alguns buscam orientação espiritual somente em ocasiões especiais, como casamentos e negócios.
A Maya, de Juliana Paes, parece repetir o ''ouro, muito ouro'', bordão de Khadija, personagem de Carla Diaz em ''O Clone''. Coberta de jóias da cabeça aos pés, na opinião de Shelly, Maya não se vestiria assim nem aqui nem na Índia. ''Jóia para o indiano é ouro, mas, hoje em dia, não dá para andar na rua ostentando tanta riqueza''comenta a professora.
A cultura indiana de Glória Perez está algumas décadas atrás do país que os Sharma encontram, a cada ano em que refazem os caminhos da Índia para rever amigos e familiares em Chanaligarh, capital dos estados de Punjabe e Haryana, noroeste indiano.
''Há 40 anos as coisas já estavam diferente na Índia. Quando eu morava lá, já havia muita mudança. Por exemplo, eu fiz doutorado nos anos 70, na Índia. Se vivesse na Índia da novela, eu nem teria saído de casa'', avalia Shelly.
Ainda não dá para saber se o ''Romeu e Julieta'' indiano de Glória Perez vai terminar em morte, como entre os amantes de Verona, mas até os Montecchios e Capulettos hindus estão deixando as diferenças de lado em função das mudanças culturais, que são inevitáveis.
''Na Índia todo casamento tem a participação das famílias. Eu e o meu marido nos conhecemos no ambiente universitário, mas as nossas famílias tiveram grande participação em nosso casamento. O nosso filho mais velho, Manish, de 28 anos, é casado com uma brasileira. Fizemos duas celebrações, uma hindu e outra cristã. O filho mais novo, Hitesh, 25 anos, também namora uma brasileira e quer se casar na Índia'', conta Shelly.
Naresh considera importante a novela mostrar o relacionamento de pais e filhos. ''Na Índia, os pais têm autoridade sobre os filhos mesmo depois de crescidos. A novela também mostra o comportamento diferente das personagens Duda e Maya em relação à gravidez fora do casamento. A situação é a mesma, mas o comportamento é diferente. Na Índia não é comum as mulheres engravidarem sem se casar, como no Brasil''.
Completamente inserida no Brasil, a família Sharma mantém a religião hindu. Os dois são vegetarianos e gostam da combinação arroz com feijão. Também se rendem ao hábito bem brasileiro de assistir folhetins e dão um palpite sobre o destino dos protagonistas Maya e Bahuan (Márcio Garcia), acreditando num final feliz e, lógico, de novela.

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