TODOS OS CAMINHOS DO HUMOR
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de maio de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
O humor ácido é a linha mestra do espetáculo Fulano e Sicrano, que o Centro Teatral e Etc e Tal, do Rio de Janeiro, apresenta hoje e amanhã no Festival Internacional de Londrina. A montagem é resultado de uma pesquisa de sete anos, a partir da qual o grupo criou uma linguagem particular.
Utilizando mímica e elementos de histórias em quadrinho e cinema de animação, a dupla Álvaro Assad e Márcio Moura leva ao palco do Teatro Zaqueu de Melo, às 19 horas, simples histórias do cotidiano, exploradas através de um olhar retorcido.
Álvaro Assad ressalta que o trabalho se baseia no uso técnico mais contemporâneo da mímica, que não deve ser comparado às vertentes clássicas.
O grupo aproveita o efeito de ilusão que a mímica permite, desde o movimento até o histrionismo sonoro.
Na intenção de mostrar ao espectador que a comunicação pode ser mais simples e direta se fulanos e sicranos estiverem frente a frente, os atores inventaram uma língua chamada abahu, que é derivada do gramelô (dialeto cujos sons só ganham significado pela entonação).
Em Fulano e Sicrano, os atores utilizam técnicas diferentes para contar três histórias. Um dia atribulado na vida de uma dona de casa é o enredo de Elizabeth Maria, na qual o grupo apresenta a pantomima literária, técnica em que a narração é simultânea à ação. Enquanto um narra em português, o outro fala em abahu, exemplifica.
No restante do espetáculo, o público não ouvirá mais nada em português. Nem mesmo a conversa de O Dentista, que mostra a situação de sofrimento em uma consulta odontológica. O público pode não entender as palavras, mas sabe o que está acontecendo na cena, alerta.
A terceira parte do espetáculo acontece atrás de um biombo, onde os atores aparecem apenas em meio corpo. Com esse recurso, os personagens criam hipotéticas situações em cenas que imitam perseguições em escadas rolantes e elevadores e até uma coreografia de nado sincronizado.
Nesse trabalho, o grupo buscou referências em experiências variadas, como a da brasileira Denise Stoklos, do francês Michel Courtemanche, dos mímicos Jiddu (de Curitiba) e Fernando Vieira (de São Paulo), além de desenhos animados em geral.
O grupo também se ateve a uma pesquisa de linguagem facial que destaca o grotesco e histriônico. Por isso mesmo os atores entram em cena de cara limpa, sem a tradicional máscara branca.
A iluminação tem papel de destaque, já que o responsável Aurélio Oliosi criou um mapa que faz todo o espetáculo recortado, como uma história em quadrinhos.
Álvaro Assad e Márcio Moura também vão levar sua arte para a rua. Nos dias 19 e 20, eles estarão apresentando trechos do espetáculo na Escola Oficina Pestalozzi e no Assentamento São Carlos.
Fulano e Sicrano estreou no ano passado, depois de seis anos de criação do grupo. Pela primeira vez em Londrina, o Centro Teatral traz no currículo a participação em vários festivais, acumulando 12 prêmios.
Fulano e Sicrano, espetáculo com o Centro Teatral e Etc e Tal, do Rio de Janeiro. Direção: Álvaro Assad. Elenco: Álvaro Assad e Márcio Moura. Assistência de direção: Melissa Teles-Lôbo. Figurinos e adereços: Fernanda Sabino. Iluminação: Aurélio Oliosi. Trilha sonora: Centro Teatral. Operação/som: Arise Assad.


