Ninguém se espantou, no 4º Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), quando indicou-se Assunção Hernandez como candidata única à presidência da entidade: ela era até aqui vice de Gustavo Dahl, indicado pelo presidente da República para dirigir a Agência Brasileira de Cinema (Ancine), e sua sucessora natural.
Surpresa mesmo foi quando se anunciou o nome de Valmir Fernandes para integrar a diretoria. No 4º CBC, encerrado domingo, no Rio de Janeiro, Fernandes representava a Associação Brasileira de Operadores de Multiplex (Abraplex), a parcela dos exibidores mais ligada ao cinema (e ao capital) estrangeiro.
O significado de sua inclusão na diretoria do CBC não é pequeno. Há 30 anos, pelo menos, produtores e exibidores desenvolveram sólida inimizade e a crença de que seus interesses são necessariamente conflitantes.
O 4º CBC selou a paz entre as duas categorias. Não é uma paz fácil. Quem entrou algum dia em uma sala do grupo de trabalho referente à distribuição e exibição sabe que as divergências ali nem sempre foram pequenas.
O essencial, no entanto, é que talvez pela primeira vez na história os três setores básicos da área (produção, distribuição, exibição) reconhecem-se no mesmo barco.
Os produtores sabem que o objetivo central do seu setor (a capacidade de se auto-sustentar) passa por levar os filmes aos cinemas. Para tanto, é bom que existam cinemas. Como chegar a isso se, conforme o último censo do IBGE, apenas 7% das cidades brasileiras possuem salas de exibição? E o que fazer se, como expôs um exibidor, o parque de salas praticamente dobrou de valor desde o início do Plano Real (em decorrência das novas salas instaladas), mas o mercado cresceu apenas 15%? A demonstração do desequilíbrio entre investimento e retorno na exibição levou Gustavo Dahl a admitir que ''hoje, não é o cinema brasileiro que está ameaçado, mas o hábito de ir ao cinema no Brasil''. Ou, em outras palavras, o abacaxi que a Ancine terá a descascar no futuro é ainda mais complicado do que se pode imaginar vendo as coisas apenas pelo lado da produção.
Existe, porém, outro segmento implicado nessa história: a televisão. No congresso do ano passado, ocorrido em Porto Alegre, pareceu haver um esboço de diálogo. Neste ano, não foi vista nem sombra de TV.
O divórcio, aqui, continua completo. A questão, para a área de cinema, pode ser reduzida à seguinte fórmula: trata-se de decidir se cabe ou não controle social sobre a televisão. Ou ainda: na Europa, a colaboração cinema/TV existe porque lá a TV tem origem estatal. Nos EUA, porque a TV não criou tradição de produzir. No Brasil, a TV nasceu privada, cria seus próprios programas e dispõe de um poder imenso.
A proposta básica do 4º CBC ainda é de que as TVs destinem uma parcela de seu faturamento a co-produções com produtores independentes (algo próximo do que existe no modelo francês de financiamento) e na aquisição de filmes.
O assunto é tão delicado que, após uma intervenção mais veemente sobre o tema, Dahl pediu para ''ir com calma'' e comparou o problema com as negociações para o fim da Guerra do Vietnã, em que apenas a discussão sobre o formato da mesa de negociações levou meses a fio.
A comparação é clara o bastante para que se perceba a dificuldade das tratativas com a TV e sua importância para o cinema nacional. Difícil, por ora, é saber se estamos partindo para o fim da Guerra do Vietnã ou diante de um impasse infindável, tipo o conflito israelenses/palestinos.
Com tudo isso, 2001 parece ter sido um ano de grande importância. Há um ano, no congresso de Porto Alegre, o que se buscava era detectar os problemas de um cinema em crise e sem nenhuma política, e tentar afirmar formas de interlocução de toda a área com o governo.
Este ano, no Rio, tudo parecia mais claro: conhecem-se as questões, criaram-se canais de diálogo e até a perspectiva de uma política para o setor. Daqui por diante, os problemas são apenas os mesmos do Brasil, quer dizer, imensos.

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