Não é só na música que a cultura brasileira se assemelha à cubana. Além da graça irradiante e do improviso, ingredientes fundamentais tanto do bom samba tupiniquim como dos admiráveis velhinhos do grupo musical Buena Vista Social Club, as duas culturas se encontram quando o assunto é culinária.
Para a geógrafa e professora cubana Ana Margarita Barandela García, radicada no país desde 1994, quando iniciou curso de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), há muitas explicações para a proximidade entre estas duas culturas: ‘‘Além do clima parecido, e da quase inexistente influência indígena, a origem dos negros que foram escravizados no Brasil e em Cuba é a mesma. Vieram do mesmo ponto da África, daí as semelhanças entre orixás, ritmos e costumes’’, explica a professora de espanhol que veio a Londrina para trabalhar na UEL em julho do ano passado.
Apesar das semelhanças, não é fácil criar pratos fiéis à tradicão cubana: ‘‘É difícil encontrar os ingredientes’’, adverte García, lembrando que às vezes percorre uma feira inteira em busca do produto ideal. É o caso da banana da terra (uma pouco mais seca que a tradicional), que, segundo o marido de García, Gonzalo Abio Vírsida, é encontrada em maior número no estado de Minas Gerais: ‘‘Quando morávamos em São Paulo, tínhamos de reservar a banana, senão acabava’’ recorda o professor cubano que deixou a ilha de Fidel para iniciar o mestrado em Biologia na USP.
Para além das semelhanças, há acontecimentos relacioandas à história de Cuba que tornam sua culinária peculiar no resto do mundo. As mulheres, em geral, são as responsáveis pela refeição: ‘‘Em Cuba não existem empregadas domésticas. Por isso sobra quase tudo para a esposa. Mas os maridos ajudam’’ explica García, que, após ter passado alguns anos no Brasil, não pode voltar a residir em sua cidade natal, Havana: ‘‘Após um tempo fora, você perde todos os seus bens e o governo só permite que você retorne ao país para passar férias’’.
A cultura chinesa, que muito influenciou a ‘‘isla de la revolúcion’’ em seu modelo político, também acrescentou à culinária local algumas características: ‘‘No início do século 20, muitos chineses chegaram à Cuba para trabalhar quase como escravos, recebendo salário que servia unicamente para comer’’, relata García. Junto à colonização espanhola (que na região da Andaluzia resguardava tradições mouras), à influência africana e ao cultivo da mandioca (uma das únicas heranças dos aborígenes cubanos), a cultura chinesa compõe o que seria o berço da culinária cubana, um misto de tradições distintas que atribui à Cuba a miscigenação tão presente na diversidade brasileira.
Entre as particularidades da mesa cubana, estão o ajiaco, uma sopa típica surgida entre os escravos que inclui carne de cavalo, de boi e de porco, além de batata, banana, milho, mandioca e muita pimenta - um equivalente à feijoada brasileira, excluindo o feijão. O feijão, presença constante do cardápio do brasileiro, acompanha o arroz sempre se moldando a novos formatos: ervilha, lentilha, grão de bico e feijão branco, todos grãos diferenciados, mas que em Cuba são apresentados como feijão. Todos esses modelos incluem algum tipo de carne, à exceção do feijão preto, que traz muito pimentão, cebola, alho e pimenta. O peso de cada ingrediente é medido em libras, e não em gramas, o nosso padrão. Por isso, ao pesquisar receitas em um livro cubano, não se esqueça de converter as medidas. Para quem quiser mais informações sobre a culinária cubana, García avisa que responde pelo e-mail: [email protected]. Ela também cedeu algumas receitas para a Folha 2. Confira.

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