Todo o sentimento
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de julho de 2015
Geraldo Bessa <br>TV Press
Os olhos vivos e os gestos intensos de Alinne Moraes ainda são parte importante de sua "persona". Mas é visível que a moça está diferente. Tranquila, escolhendo melhor as palavras e sem a pretensão de parecer totalmente segura, a intérprete da ingênua Lívia de "Além do Tempo", da Globo, acredita que a maternidade e três anos fora da tevê alteraram sua relação com o veículo que a fez a famosa. "Volto aos estúdios de forma mais sensível. Tenho aproveitado e me divertido mais com o processo de trabalho. Estou em uma fase mais madura na vida e na profissão", destaca.
Retomar a carreira com a atual novela das seis, inclusive, tem tudo a ver com o momento mais calmo de Alinne. Na trama assinada por Elizabeth Jhin e dirigida por Rogério Gomes, Lívia é uma doce camponesa que vive um amor proibido com Felipe, de Rafael Cardoso. Entre clichês românticos e espiritualidade, a produção aborda a evolução e o amadurecimento de seus personagens. "Me apaixonei pelo projeto de cara. Falta romantismo nas novelas atuais e os folhetins das 18 horas têm essa tradição. Vejo as cenas e acho tudo lindo", exalta.
Natural de Sorocaba, interior de São Paulo, aos 32 anos, Alinne é racional ao falar de sua relação com a Globo, onde estreou na juvenil "Coração de Estudante", de 2002. "Se você não mostrar o que quer e pode fazer, vai continuar sempre fazendo mais do mesmo", conta a atriz, que engrenou na emissora depois de personagens de destaques em tramas como "Mulheres Apaixonadas" e "Da Cor do Pecado", onde começou a ser disputada pelos núcleos de direção da Globo.
Aliado a isso, a repercussão da exagerada Silvia de "Duas Caras" e a da sofrida Luciana de "Viver a Vida" fizeram com que ela conquistasse maior autonomia para escolher seus trabalhos. "Sempre busquei o diálogo. Amo fazer novelas, mas é necessário estar 100% envolvida com o projeto para ser feliz durante os oito ou nove meses do projeto", ressalta.
"Além do Tempo" marca seu retorno aos folhetins tradicionais seis anos depois de "Viver a Vida". Envolver-se por muito tempo com um trabalho deixou de ser atraente para você?
Acho que foram as circunstâncias mesmo. Eu vinha de dois trabalhos longos e de muita repercussão, a Silvia de "Duas Caras" e a Luciana de "Viver a Vida". Precisava me reciclar, fazer outras coisas. E nesse meio tempo, pintou o remake de "O Astro" e a série "Como Aproveitar O Fim do Mundo". Aí me envolvi com outros projetos, recusei alguns convites para novelas e, quando eu iria voltar, descobri que estava grávida.
Recusar tantos projetos criou algum mal-estar entre você e a direção da Globo?
De jeito nenhum. Tenho noção de que sou contratada, que preciso estar disponível. Acabei fazendo participações muito legais em projetos especiais e curtíssimos como "Amor em Quatro Atos" e "As Cariocas". Diminuí o ritmo, mas dava as caras no vídeo de vez em quando. Foi um momento ótimo. Acho que volto para as novelas com uma "fome" enorme de estúdio, da rotina de criação da cenas. Sou "cria" das novelas. Posso ter experimentado outros formatos, mas sei de onde vim.
Você chegou a ser sondada para outras novelas com estreia entre 2015 e 2016. O que a levou a optar por "Além do Tempo"?
A história é muito interessante. Achei a "sacada" de dividir a trama e resolver os problemas de vidas passadas muito original. E o convite partiu do Rogério Gomes, um diretor que me ajudou muito em "Coração de Estudante", minha primeira novela. Ele me falou do romantismo, da mensagem positiva que a novela gostaria de passar e eu pensei: "Acho que é hora de voltar mesmo". Vendo as primeiras cenas, me bateu uma emoção enorme!
Por quê?
Essa tradição de novela de época no horário das seis sempre me atraiu. Antes, eu só tinha feito uma participação nos primeiros capítulos de "Cordel Encantado" (2011) e uma outra incursão de época, embora não tão tradicional, como a Penny Lane de "Bang Bang" (2005), que era uma comédia no horário das sete. Sentia falta desse tipo de personagem, acompanhei muitas novelas com essa "pegada" histórica, romântica, mas sem deixar de ser realista, de ter um contexto. E vi em "Além do Tempo" uma chance de ouro de voltar ao ar em um produto que me instiga.
Seu filho tem pouco mais de um ano. O esquema de gravação mais tranquilo de uma novela das seis ajuda a conciliar a atuação e a maternidade?
Lógico. Não tem o "peso" de uma trama das nove. E a equipe está me ajudando muito. Sou mãe de primeira viagem, extremamente protetora, é difícil largar a cria e ir trabalhar. Então, foi todo um processo de readaptação. Passamos um mês gravando no Sul do país e levei meu filho. Ele foi muito paparicado nos bastidores, se comportou bem demais e fiquei orgulhosa. Ele me deixou trabalhar tranquilamente. E olha que o ritmo era puxado!
Como assim?
A equipe de direção queria utilizar as cores naturais da região, a luz do dia. Para garantir essa iluminação, era preciso começar a gravar umas 6 horas da manhã. Eu acordava às 4 horas para poder dar atenção ao meu filho, me arrumar e estar pronta para gravar. E essa maratona ia até quase o sol desaparecer. As cenas ficaram impressionantes de tão lindas. Eu sou muito crítica com meus trabalhos e não sofri nada vendo "Além do Tempo".
Muitas atrizes aceitam o posto de mocinha, mas se queixam do tom monocromático desse tipo de papel. Você sente essa dificuldade com a Lívia?
De jeito nenhum. Acho que eu estava precisando desse tipo de emoção pura, ingênua e clássica da Lívia. Não tenho medo ou qualquer dificuldade com os clichês do romantismo. Interpretar a mocinha é algo muito prazeroso. Principalmente, em tramas de época, onde você consegue tirar inspiração do texto e de suas próprias memórias. A Lívia me leva na direção dos dilemas que já vivi. Estou muito feliz com essa personagem. Talvez, se eu começasse a ser chamada e a realizar sempre o mesmo tipo de trabalho, me sentiria desconfortável.
Você é, geralmente, escalada para tipos extrovertidos e exagerados. "Além do Tempo" é um exercício em direção à delicadeza?
Tem isso também. Eu venho de personagens muito fortes, "para fora", extravagantes mesmo. Fiz a jovem lésbica que luta contra tudo e todos para viver o grande amor em "Mulheres Apaixonadas", uma louca varrida como a Silvia de "Duas Caras", uma ex-modelo paralítica e cheia de conflitos internos em "Viver a Vida". Tive personagens de dar inveja às atrizes que reclamam de fazer mocinhas. Então, esse trabalho está na contramão. Preciso ser leve, branda, romântica e delicada. É uma delícia.
A Lívia volta na segunda fase de "Além do Tempo" menos romântica e mais segura de si. Existe alguma preparação específica para esses capítulos contemporâneos?
A sinopse da novela sofreu algumas modificações. Tanto que nem precisei ler. Sei que a Lívia será mesmo mais "pé no chão", que trabalhará em uma vinícola e que vai demorar um pouco mais para encontrar o Felipe (Rafael Cardoso). Até nisso essa novela é especial. Vão ser dois trabalhos em apenas um. Eu vou sendo guiada pelo texto e pela direção. Rogério e Elizabeth (Jhin, autora) sabem bem o que querem.
Na marra
Alinne Moraes é do tipo precoce. Aos 12 anos, já viajava na companhia da mãe para fotografar e desfilar em passarelas de Nova Iorque e Milão. Aos 20, decidiu dar um tempo do mundo da moda e, descoberta em um teste pelo diretor Ricardo Waddington, se aventurou pela televisão com a despojada Rosana de "Coração de Estudante". "Eu era muito crua. Não sabia olhar para a câmera, não sabia fingir que ela não estava lá", conta, entre risos.
A experiência virou profissão e, no esquema de "aprender fazendo", Alinne foi, pouco a pouco, conquistando seu espaço e personagens maiores. Não só na televisão, mas no teatro e no cinema. "Eu combinava com os produtores da Globo que, entre uma novela e outra, precisaria de um tempo para fazer outras coisas. Não tive formação teatral ou qualquer curso, aprendi tudo na coragem. Diversificar e experimentar era um meio de entregar um trabalho melhor para a própria empresa", garante. (G.B.)
Tudo ao seu tempo
Começar na tevê com um papel secundário em uma trama das seis foi primordial para Alinne Moraes. Sem chamar tanta atenção, ela evitou o preconceito natural de alguns atores em relação a modelos aspirantes a atriz. Dessa forma, quando conquistou popularidade com a solar Clara de "Mulheres Apaixonadas", de 2003, ganhando prêmios e elogios por conta da jovem lésbica que se apaixona pela primeira vez, Alinne já tinha um "background" de como as coisas funcionavam na televisão. "Explodir na estreia poderia ser perigoso. Foi legal viver os dois lados da história, as incertezas. A Clara foi muito importante, mas tudo começou mesmo foi com a Rosana", relembra. (G.B.)